O cisco e a trave

O cisco e a trave

“Como é que vedes um cisco no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: deixa-me tirar um cisco do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vereis como tirar o cisco do olho do vosso irmão” (Jesus, Mateus, 7:3 a 5)

Edição de dezembro/2017 – pág. 26

O cisco e a trave

O ser humano tem mais facilidade para ver os defeitos, as falhas dos outros, do que as suas próprias. O escritor Humberto de Campos, fazendo humor, teve oportunidade de escrever que Deus, quando fez o homem, colocou-lhe dois sacos: um na frente e outro nas costas. No saco da frente colocou os defeitos dos outros; e no das costas foram colocados os defeitos do próprio. Por isso que temos muitas dificuldades em perceber nossos próprios defeitos, já que ficam no saco das costas, não alcançado pela vista. Mas os defeitos dos outros vemos com facilidade, pois estão bem diante de nossos olhos.

Jesus usa uma expressão forte, enérgica: “Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então vede como podereis tirar o cisco do olho do vosso irmão”. O cisco é objeto pequeno, atrapalha um pouco, e a trave é algo muito maior, um pedaço de madeira capaz de nos impedir totalmente a visão. Temos que cuidar da nossa sombra, dos nossos inimigos internos: orgulho, egoísmo, vaidade, apego, ciúmes, etc. Resolver primeiro nossas dificuldades íntimas, e depois estaremos em condições de auxiliar o próximo na solução dos seus problemas. E esse auxílio ao próximo vai ocorrer muito mais por nossas atitudes, pelos exemplos que estimularão nosso semelhante a trabalhar com suas dificuldades. E não por críticas, por “conselhos” como gostamos de fazer.

O Evangelho, mais uma vez, nos chama a atenção para o fato de que a causa de nossas dificuldades está em nós mesmos. Imprescindível nos autoanalisarmos, conhecermo-nos melhor e buscar uma visão mais objetiva de pessoas e situações.

No livro “Jesus no Lar”, de Neio Lúcio, psicografado por Francisco C. Xavier, a lição n.° 3, intitulada “Explicações do Mestre”, fala de uma das reuniões realizadas por Jesus na casa dos apóstolos. Sara, esposa de Benjamim, criador de cabras, diz ao Mestre:

— A ideia do Reino de Deus, em nossas vidas, é realmente sublime, Todavia como iniciar-me nela? Eu desejaria ser fiel a semelhante princípio, mas sinto-me presa a velhas normas. Não consigo desculpar os que me ofendem; não entendo uma vida em que troquemos nossas vantagens pelo interesse dos outros; sou apegada aos meus bens e ciumenta de tudo o que aceito como sendo propriedade minha.

Pergunta Jesus: — Qual é o serviço fundamental em tua casa?

— É a criação de cabras, ela responde.

— Como procedes para conservar o leite inalterado e puro para o consumo?

Ela informa: — É necessário lavar cautelosamente o vaso em que será despejado. Conclui o Mestre: — Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificarmos o vaso da alma, o conteúdo se confunde com nossos desequilíbrios, com nossas sombras e perde sua pureza, sua integridade.

“O orvalho num lírio é diamante celeste, mas na poeira da estrada é gota lamacenta”.

Significa que os ensinos que recebemos se misturam com os conteúdos que carregamos conosco, perdendo, em alguns casos mais, em outros menos, sua pureza e força de transformação que possuem.
Daí a necessidade de nos conhecermos, nos analisarmos e buscar limpar nosso interior das sombras que nos prejudicam.

O ser humano pode ser comparado a um vaso grande, com água e lama, sujeira no fundo. Parado, a água sem movimento, a sujeira se acomoda no fundo, de sorte que quando olhamos a superfície, a aparência é boa, parece que a água está limpa. Mas se a movimentarmos, se, com uma vareta, tocarmos o fundo do vaso, a sujeira virá à tona. A vareta, que fez a sujeira aparecer, são as circunstâncias da vida, o contato com os outros. Achamos que a causa da sujeira aparecer foi o outro, ou a circunstância, e não percebemos que, se o interior do vaso estivesse efetivamente limpo, mesmo que a vareta o tocasse, não teria aparecido o lodo. Portanto, a causa do conflito, ou da dificuldade está em nosso íntimo, no fundo do vaso, e não no outro.

Para remover a sujeira, é necessário tomar conhecimento da existência dela. Saber que ela existe e nos dispormos a removê-la. No caso do ser humano, necessário humildade para reconhecermos nossas imperfeições. Aceitar que a causa dos problemas está em nós, em nossas sombras íntimas: o apego, o egoísmo, a vaidade, como reconheceu Sara, a interlocutora de Jesus. Cumpridas essas etapas, tudo fica mais fácil, porque começamos a corrigir nossa percepção dos fatos, e vamos nos ajustando às situações.