NAMM Show

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JAN/16 – pág. 58 e 59

Fábrica da Odery
Fábrica da Odery

Janeiro é mês de música, janeiro é mês de NAMM Show! Realizada anualmente no Anaheim Convention Center, em Anaheim, cidade a 26 milhas de Los Angeles, a NAMM Show apresenta os instrumentos musicais e equipamentos de áudio que estarão nas vitrines de todo o mundo. Estima-se que esse mercado movimente anualmente, apenas nos Estados Unidos, um volume aproximado de 17 bilhões de dólares. São centenas de produtos de diferentes segmentos, como cordas, percussão, sopros, teclados e áudio profissional, dentre outros. Na edição 2016, o evento – exclusivo para profissionais do setor musical – será realizado entre os dias 21 e 24 de janeiro.

O Brasil na NAMM Show

A exemplo de edições anteriores, em 2016, também serão muitas as empresas brasileiras presentes no evento, todas apresentando seus novos produtos. A ANAFIMA, em parceria com a APEX-Brasil, iniciou um projeto para estimular as exportações das empresas brasileiras de áudio e instrumentos. Segundo Daniel Neves, Presidente da ANAFIMA (Associação Nacional da Indústria da Música), ‘teremos um pavilhão com 26 marcas produzidas no Brasil’, conclui Daniel. Considerando as altas taxas cambiais e a redução significativa de negócios no mercado brasileiro, empresas brasileiras como Odery, Urbann Boards e Contemporânea passaram a investir no mercado externo, uma vez que oferecem produtos de alta qualidade com preços competitivos.

Maurício Cunha, CEO da Odery
Maurício Cunha, CEO da Odery

Para a primeira edição do Nossa Gente/2016, trazemos com exclusividade uma entrevista com Maurício Cunha, CEO da Odery, empresa fabricante de baterias, e Diretor de Instrumentos Musicais da ANAFIMA.

Nossa Gente – De um modo geral, como foi o ano de 2015 para o mercado brasileiro de instrumentos musicais?

Maurício Cunha – Foi um ano muito difícil, de completa inconsistência econômica, inflação alta, moeda fortemente desvalorizada e política sem rumo. Esta soma de fatores negativos refletiu diretamente em nosso setor durante todo o ano. Vimos alguns importadores e fabricantes desesperados que, em alguns momentos, buscaram vendas a qualquer custo para poder fazer caixa e se manter de pé. Alguns, inclusive varejistas, fecharam as portas. Portanto, foi um ano confuso, com preços de varejo instáveis e de bagunça geral. Na Odery, especificamente, tivemos uma queda nas vendas e, consequentemente, na margem de lucro, porém ainda positiva. Resultado de trabalho feito com serenidade e sempre mantendo a política comercial firme. Também mantivemos os investimentos em marketing, pois acreditamos sair mais fortes no pós-crise.

NG – Quais são as linhas de produtos que a Odery oferece?

MC – Fabricamos basicamente baterias acústicas e ferragens, como também zabumba, timbales e afins. Também distribuímos Carlsbro, que é uma marca de bateria eletrônica inglesa.

NG – Com o mercado recessivo, a empresa alterou a linha de produtos comercializados como, por exemplo, excluindo os de menos giro?

MC – Não excluímos, mas diminuímos a produção. Obviamente em um momento como este, onde o consumidor gasta pouco, o foco acaba sendo nos produtos de entrada, com valor mais convidativo. Também viemos investindo no Café Kit, que é um produto lançado no final de 2014 e que teve grande receptividade, pois preencheu uma lacuna na qual não existem concorrentes. Durante o ano de 2015, mantivemos nossos esforços na produção das baterias Custom que, agora com o dólar valorizado, voltou a ser um produto competitivo no mercado externo, onde buscamos parceiros para fortalecer nossas exportações.

NG – Quantos funcionários trabalham na Odery?

MC – Nas instalações do Brasil, mais especificamente em Campinas, temos 17 funcionários, sendo apenas 4 na produção, uma vez que nessa fábrica produzimos artesanalmente e, portanto, a mão de obra é reduzida. Já na fábrica da China, onde temos a fábrica parceira e a produção é industrializada, temos cerca de 90 funcionários.

NG – Dentre as diferentes linhas de produtos, quais são fabricados no Brasil e quais na China?

MC – As baterias custom shop, feitas manualmente uma a uma, são fabricadas no Brasil. São baterias muito especiais, produzidas apenas sob encomenda. Na China, são produzidas todas as demais linhas, sendo a inRock, o nosso modelo de entrada; a Fluence, um modelo intermediário/profissional; a Eyedentity, o modelo topo de linha; e a Café Kit, uma minibateria de grande sucesso. Além das baterias mencionadas, também fabricamos – na China – as ferragens que acompanham as baterias.

Caixas de alumínio modelo Custom
Caixas de alumínio modelo Custom

NG – Como funciona o controle de qualidade para os produtos fabricados no exterior?

MC – O nosso contato com fábrica na China é mais que próximo. Ela é nossa sócia na distribuição da Odery para China, assim como para os Estados Unidos, onde também temos sócios americanos. Portanto, a fábrica da China tem total comprometimento com a qualidade, pois ela também vende os produtos e participa da distribuição. Além disso, temos na China um funcionário brasileiro que acompanha todas as etapas de fabricação e que aprova ou reprova os produtos. Ao recebermos as baterias no Brasil, abrimos por amostragem algumas embalagens para verificação. Já nos Estados Unidos, abrimos 100% das embalagens para conferência, uma vez que as quantidades que chegam lá ainda são pequenas e, portanto, o processo de conferência pode ser feito por completo.

NG – Embora você não seja baterista, os projetos de novos instrumentos são idealizados por você. Que fonte de informação ou inspiração utiliza para desenvolver produtos?

MC – Bem, como sou músico guitarrista e violonista, sempre fui apaixonado por música e por instrumentos musicais. Apesar de tocar guitarra, sempre amei bateria e até toco um pouco. Para mim, foi sempre natural o desenvolvimento de produtos. Na maioria dos casos, sou eu quem desenha as peças, além dos tipos de acabamento, configurações, sistemas de funcionamento e outros detalhes que o produto exige. Assim que tenho uma ideia, converso com meu pai, Mr. Odery, que hoje está com 76 anos e ainda exerce grande atividade na fábrica. Ele capta rapidamente a ideia, desenvolve os protótipos, e assim aprimoramos e idealizamos cada produto a ser desenvolvido. Além disso, contamos sempre com o apoio dos nossos colaboradores, que estão conosco há bastante tempo; bem como dos bateristas, que nos dão ideias preciosas.

Portanto, a fonte de informação são as minhas ideias. Olho e penso: “Acho que isso vai ficar legal”, e vou em frente. Não utilizo a internet para pesquisar ou ver o que os concorrentes estão desenvolvendo. Penso que temos que inovar e, para isso, temos que usar nossos conhecimentos e ideias a partir de algum problema existente. O ponto é encontrarmos uma solução, e esse sim é sempre o meu foco principal.

NG – Em quais países a Odery possui revendedores?

MC – Além do Brasil, que é nossa casa, temos as vendas na China e nos Estados Unidos, onde nós mesmos participamos da distribuição. Além de nossa própria distribuição, temos distribuidores na Austrália, Índia, Singapura, Coreia do Sul, Tailândia, Argentina, Chile, Reino Unido, Itália, Alemanha, Portugal, Bulgária e outros (para quem vendemos mais esporadicamente). Recentemente, começamos um trabalho com um distribuidor no Japão.

NG – Qual a participação de mercado da Odery no mercado nacional?

MC – Difícil dar números com exatidão, até porque existem muitas marcas importadas não representativas, como também as que vendem muito os produtos de entrada, muito baratos, quando a qualidade não é a principal característica. Acredito que se considerarmos as marcas conceituadas, sendo elas nacionais ou estrangeiras, a Odery se posicione entre as três marcas mais comercializadas.

NG – Os bateristas acreditam que boa parte das baterias tem sonoridade muito parecida, uma vez que muitas delas são fabricadas na China. A Odery, fabricada no exterior, segue algum critério que a diferencie de concorrentes quanto ao aspecto “sonoridade”?

MC – Na verdade tudo influencia na sonoridade de um tambor, e não apenas a madeira utilizada na fabricação. A forma de construção, as peles utilizadas, a afinação, a espessura da madeira, o acabamento, as ferragens empregadas para afinar e sustentar os tambores, tudo influencia na sonoridade de um tambor. Sendo assim, falar de uma forma simplista não é o caminho correto. O que fazemos é desenvolver os projetos com paixão e fazer deles grandes instrumentos. Buscamos aliar custo, qualidade e inovação. Na linha Eyedentity, por exemplo, que é nosso modelo top de linha fabricado na China, oferecemos um design todo especial para as ferragens, além de usarmos peles da marca norte-americana Evans, fabricadas pela Daddario, e construímos os tambores com as madeiras Maple e Birch, que a grande maioria da indústria de baterias também utiliza. No entanto, lançamos modelos utilizando as madeiras Bubinga e Sapele, que são madeiras africanas especiais, além da Nyatoh, que é proveniente das Filipinas. O uso desse tipo de madeira diferencia a sonoridade de nossos instrumentos dos concorrentes.

Mercado Externo

tabelaNG – Expor na NAMM Show é uma iniciativa isolada ou parte de um projeto voltado ao mercado norte-americano?

MC – Somos expositores da NAMM Show desde 2003, ou seja, este é o 13° ano que expomos nossos produtos na feira. Termos os nossos produtos em exposição na NAMM é parte de um projeto de internacionalização, onde os Estados Unidos é o ponto central, bem como a China. Em 2003, só fabricávamos no Brasil. Com a valorização do Real frente ao Dólar nos últimos anos, nossos produtos se tornaram caros no mercado externo e perdemos o market share que já havíamos conquistado. Agora, estamos num momento diferente, pois temos uma sólida fabricação na China, o Real desvalorizou frente ao Dólar e, assim, nossos preços voltaram a ser atraentes.

NG – Quais os planos para a Odery USA?

MC – Já estamos com estoque nos Estados Unidos, vendendo pelo Amazon e em muitas lojas de bateria e instrumentos musicais. Nosso projeto é fortalecer a marca Odery passo a passo e assim conquistarmos aos poucos, e de maneira sólida, o mercado norte-americano. Como mencionei anteriormente, a fábrica na China é nossa sócia na distribuição, e nosso sócio norte-americano foi Vice-Presidente de duas grandes empresas do ramo. É ele quem está à frente do projeto para os Estados Unidos.

NG – Na sua opinião, quais são as maiores dificuldades para conquistar novos mercados, como o europeu e norte-americano?

MC – Encontrar um parceiro certo nesses mercados talvez seja o principal desafio. É preciso que ele entenda a nossa cultura, a nossa maneira de trabalhar, e que faça isso da mesma forma como nós fazemos. Temos excelentes produtos, o que facilita conquistar novos mercados. Mas isso não é tudo. Também é necessário investimento em marketing e promoção.

NG – Atuar nesses mercados e obter maior participação estão nos planos da Odery, ou investir no mercado interno continua sendo prioridade?

MC – Hoje o mercado interno tem que ser mantido às custas de muito trabalho, aguardando pela retomada de crescimento no futuro. Não acredito que, no ano de 2016, aconteça muita coisa no Brasil e, portanto, prospectamos para 2016 e 2017 crescer principalmente na China e nos Estados Unidos. A Europa também é um desafio, uma vez que planejamos abrir a distribuição para países que ainda não trabalhamos, mas que virão como consequência de um trabalho global feito principalmente nos Estados Unidos.

ANAFIMA

NG – Paralelamente a Odery, você ocupa um cargo na ANAFIMA. Qual é exatamente a função que ocupa?

MC – Fui nomeado Diretor de Instrumentos Musicais a partir de janeiro deste ano. A ANAFIMA é a Associação da Indústria da Música no Brasil e hoje conta com mais de 75 associados, número que queremos expandir para a marca de 100 até o final de 2016. O Presidente, Daniel Neves, fez um ótimo trabalho em 2015, e, baseado nos esforços e resultados obtidos, aceitei colaborar para melhorar o nosso mercado. Vamos priorizar ações que promovam o crescimento do mercado da música no Brasil, pois, em nosso entendimento, ela é essencial para a cultura de um país. O Brasil tem uma grande história musical que deve ser resgatada.

NG – Quais os projetos para a ANAFIMA envolvendo a NAMM Show?

MC – Para o ano de 2016, a ANAFIMA pleiteou e conseguiu junto a APEX Brasil, agência de promoção de exportação do governo brasileiro (sim, temos isso!), o financiamento para a compra de um grande estande na NAMM Show, onde 25 empresas estarão expondo seus produtos. A ideia é ir além, reunindo estas mesmas empresas para uma ação conjunta no mercado norte-americano. Todos os nossos esforços estão voltados no sentido de promover o crescimento do mercado da música como um todo, seja fazendo lobby nas esferas governamentais para conseguirmos atingir nossos objetivos, ou mesmo na condução de projetos mais imediatos, como o ensino obrigatório de música para as crianças. Esse é o nosso compromisso, o compromisso da ANAFIMA.


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Músico, produtor musical e bacharel em Publicidade e Propaganda, membro do Latin Grammy. Autor do Manual Prático de Produção Musical.