Tragédia tira da disputa presidencial Eduardo Campos (PSB), um fortíssimo concorrente e dá a Marina Silva um protagonismo natural. Ex-senadora deve se tornar sucessora dele nas eleições. Conheça o perfil do novo eleitorado e o que pensam os analistas políticos.

Da Redação

especial_presidencia5A morte do candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, 49 anos, muda o cenário político para as eleições presidências no Brasil. Até o encerramento desta edição não havia sido confirmada a possibilidade que a candidata à vice de Campos, Marina Silva, assumisse a liderança da chapa. A tragédia com a aeronave que levava o presidenciável, que caiu no bairro do Boqueirão, em Santos – litoral paulista -, matando os sete ocupantes – dois tripulantes, Eduardo Campos e seus assessores -, vem sendo investigada por peritos da polícia federal. O acidente ocorreu no mesmo dia – 13 de agosto – em que foi sepultado o avô de Campos, Miguel Arraes, há nove anos. Nas últimas pesquisas divulgadas pelo IBOPE, Eduardo ocupava a terceira posição, 9%, tendo Dilma Rousseff na liderança, 38%, e Aécio Neves em segundo, com 23%.

Com uma ótima aprovação no seu Estado – saiu com 80% de aprovação do seu governo –, Eduardo Campos era pouco conhecido fora de Pernambuco. Por isso, trabalhava-se com a hipótese de que ele iniciava um projeto para tornar-se efetivamente presidente em 2018. Num primeiro momento, parecia se aproximar de Aécio Neves na campanha contra a presidenta Rousseff. Mas Campos fez questão de trilhar seu caminho solo para não se vincular ao candidato tucano. A tragédia tira da corrida presidencial um fortíssimo concorrente e dá a Marina Silva um protagonismo natural. Ex-senadora deve se tornar sucessora dele nas eleições.

Na sua última aparição no “Jornal Nacional” – véspera da tragédia – Campos defendeu o seu posicionamento de dar passe livre para estudantes, proposta de governo que gerou duras críticas. Seriam beneficiados 20 milhões de estudantes, entretanto, os opositores alegaram que o candidato teve mais de sete anos como governador de Pernambuco para adotar medida semelhante em seu Estado e nada ocorreu. Ele precisaria combinar com os 5.561 prefeitos de cidades brasileiras — porque o transporte público nas cidades é atribuição dos municípios, segundo a Constituição. Outro desafio era acordar com empresas privadas, que respondem pela esmagadora maioria do transporte coletivo nas cidades, que empregam centenas de milhares de trabalhadores e não vivem de brisa. A um preço de 2,85 reais cada viagem — é a tarifa em Belo Horizonte (MG)-, o projeto de Campos, segundo economistas, custaria aos cofres públicos da União 41 bilhões de reais por ano.

Biografia

Eduardo Henrique Accioly Campos nasceu em Recife no dia 10 de agosto de 1965. Ele era filho do poeta e cronista Maximiano Campos e neto do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, que morreu no mesmo dia 13 de agosto, de 2005, aos 88 anos. Ele foi governador de Pernambuco entre 2007 e 2014 e era candidato do PSB, partido do qual era também o presidente. Ele estava em terceiro lugar na disputa presidencial neste ano. Deixa cinco filhos.

Há um clima de desconfiança entre os brasileiros, ainda ressentidos com a morte de Campos. Os eleitores do candidato querem medidas urgentes para que a luta do partido se fortaleça. E de acordo com a Justiça Eleitoral, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) pode manter o pleito eleitoral em 2014, substituindo a candidatura de Eduardo Campos em virtude de seu falecimento. Pelas regras eleitorais, não é obrigatório que o novo candidato seja a vice Marina Silva. O partido pode escolher qualquer pessoa filiada ao partido, de acordo com os requisitos de elegibilidade. A escolha do substituto, segundo o TSE, será feita de acordo com as normas estabelecidas no estatuto do partido político a qual pertence o substituído. O requerimento deve ser feito até 20 dias antes do pleito.

O perfil do eleitor

Foi-se o tempo em que prometer cestas básicas, emprego ou tratamento médico era estratégia primordial para ganhar a fidelidade do eleitor. O perfil do eleitorado mudou e o nível de exigência avançou. E mesmo com o índice de baixa escolaridade de a maioria no país, houve um aumento no número de pessoas que concluíram o curso superior e mesmo o ensino médio, alavancando a consciência política no médio prazo. E segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dos 142,8 milhões de eleitores aptos a votar no pleito de outubro, 5,6% (8 milhões) terminaram a graduação – 2,8 milhões de pessoas a mais que nas eleições de 2010.

O Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que o nível de escolarização, de um modo geral, tem melhorado no país. No grupo acima de 25 anos, idade considerada suficiente para conclusão da graduação, o número de pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 64% em 2000 para 49,3% em 2010. Com ensino médio completo passou de 12,7% para 14,7% e a proporção de pessoas com ensino superior completo passou de 6,8% para 10,8%. Em contrapartida, o número de analfabetos e dos que apenas leem e escrevem (analfabetos funcionais) diminuiu. São cerca de 700 mil analfabetos a menos que na eleição de 2010, passando de 5,8% dos eleitores para 5,1%. No caso dos analfabetos funcionais, são 2,5 milhões a menos no pleito de 2014, de 14,5% do eleitorado para 12%.

O discurso agora é outro. Há uma preocupação entre os candidatos à Presidência em apresentar projetos consistentes que satisfaçam os interesses dos brasileiros, no combate à corrupção e melhorias na Educação e na Saúde – fatores essenciais. Outro tópico substancial é a criação de oportunidades no Mercado de Trabalho, evitando que o país perca a mão de obra especializada. Um número considerável de jovens recém-formados nas universidades tem embarcado para o exterior visando nova chance. Um contracenso, pois se importa médicos e profissionais no setor petrolífero, enquanto ocorre a evasão em outros setores.

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Dilma Rousseff no Templo de Salomão de Edir Macedo

A marcha pelo voto promete se intensificar quando o horário eleitoral ocupar espaço nas emissoras de rádio e televisão no Brasil – a partir de 19 de agosto. E valem todas as investidas como foi o caso da candidata à reeleição, Dilma Rousseff, que visitou recentemente a Assembleia de Deus, em São Paulo, citando passagens da Bíblia. Detalhe: a presidenta nunca se declarou religiosa.
“O Estado brasileiro é um Estado laico, mas, citando um salmo de Davi, queria dizer que ‘feliz é a nação cujo Deus é o Senhor’”. E prosseguiu Dilma: “Reconheço a autoridade e a qualidade do trabalho prestado pela Assembleia de Deus ao longo de seus 103 anos, em todos os Estados, nos rincões e áreas mais isoladas deste país, e nas periferias. A ação social de vocês contribui para a inclusão. Nós temos em comum a dedicação àqueles que mais precisam.”

Em meio a sua campanha, Dilma reagiu ao escândalo de que computadores conectados à rede do Palácio do Planalto foram usados para difamar jornalistas na internet. A petista classificou como inadmissível as alterações nos perfis na enciclopédia virtual Wikipédia dos repórteres e colunistas da área econômica, Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. “A minha opinião é que isso é absolutamente inadmissível por parte do Planalto, do governo federal, ou por parte de qualquer governo. Nesse caso específico é algo que quem individualmente quiser fazer que o faça, mas não coloque o governo no meio”, declarou durante um evento em Osasco, Região Metropolitana de São Paulo. Rousseff recordou que também foi alvo de ataques cibernéticos na eleição de 2010. Na ocasião, violaram o seu e-mail pessoal.

“Superministério” da Agricultura

O candidato do PSDB, Aécio Neves, fez um discurso inflamado e anunciou que, se eleito pretende fundir os atuais ministérios da Agricultura e da Pesca em um “Superministério” da Agricultura e disse que a nova pasta terá “igualdade de condições” com o primeiro escalão do governo federal, como os ministérios da Fazenda e do Planejamento. “Criarei no primeiro dia do governo um superministério da Agricultura. Vou incluir a Secretaria Especial de Pesca novamente sob a alçada do Ministério da Agricultura para que a pasta possa discutir ações em igualdade de condições com a Fazenda e o Planejamento”, disse o candidato.

A nova pasta, garante Aécio, permitirá maior independência em relação à equipe econômica e ao Banco do Brasil, instituição financeira responsável por disponibilizar recursos para o plano safra e para a agricultura familiar, e será ouvida na discussão de políticas de investimento logístico, de redução da carga tributária e de discussões orçamentárias. Sem dar detalhes, o candidato afirmou ainda haver a possibilidade de outras áreas serem integradas à pasta, mas disse não saber se o atual Ministério do Desenvolvimento Agrário será ou não incorporado ao superministério agrícola. “No meu governo, o superministério da Agricultura será decisivo na formulação de política de investimento e logística em infraestrutura. O Ministério da Agricultura vai discutir quais são os principais eixos de investimento que possam agregar competitividade para quem produz no Brasil”, disse.

Opinião de analistas políticos

O professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Roberto Kramer avalia que o eleitorado brasileiro está em fase de transição. Para ele, os dados do TSE comprovam o gradual avanço nas condições de vida e de educação da população. “Um eleitor mais instruído costuma ser mais exigente. Esse eleitor tende a transcender o nível mais básico de expectativas e necessidades, como o alimento e o teto, e passa a querer políticas públicas mais amplas, de educação, saúde e mobilidade urbana de qualidade.”

Alertou Kramer que os políticos vão se deparar com uma parcela cada vez maior da população que vai cobrar seus direitos. “Esse novo eleitor certamente vai lançar um desafio para os políticos, que é repaginar suas propostas, suas maneiras de abordagem, pois está mais crítico ao confrontar as promessas que são feitas com a possibilidade de concretização.”

Para a coordenadora-geral da organização não governamental (ONG) Ação Educativa, Vera Masagão, à medida que o país mude o perfil educacional da população, a tendência é que o perfil do eleitorado também seja alterado no sentido de um voto mais consciente. “Pessoas com mais escolaridade se sentem mais empoderadas, sentem menos o político como alguém de quem precisam para ter um favor. Tendem a romper essa visão do clientelismo, daquele pobrezinho que precisa ir lá pedir favor para o político. Aumentam a consciência cidadã de que eu estou exercendo meu direito votando e que o meu dever também não acaba na hora do voto. Tenho que continuar cobrando e é dever desse gestor público cumprir as promessas que fez. Esse caráter da cidadania é reforçado”, disse.

Demais candidatos presidenciáveis: Mauro Iasi (PCB), Zé Maria (PSTU), Levy Fidelix (PRTB), Eymael (PSDC), Rui Costa Pimenta (PCO), Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL).