Estrela quer guia

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Atleta cega mais rápida do mundo, Terezinha Guilhermina busca parceiro para os Jogos Rio 2016

por Luiz Humberto Monteiro Pereira

jogoscariocas@gmail.com

Entrevista com a corredora Terezinha Guilhermina, da seleção paraolímpica brasileira de atletismo – Foto: André Jung
Entrevista com a corredora Terezinha Guilhermina, da seleção paraolímpica brasileira de atletismo – Foto: André Jung

Mineira de Betim, Terezinha Guilhermina nasceu com retinose pigmentar, doença que prejudica o desenvolvimento de células sensoras de luminosidade. Na família humilde de doze irmãos, cinco também possuem deficiência visual. Quando criança, Terezinha tinha 5% da capacidade visual normal. Aos 25 anos, perdeu totalmente a visão. “Precisei me adaptar e entender que precisaria depender de alguém que pudesse me emprestar seus olhos para que eu pudesse seguir em frente”, explica. Quando tinha 20 anos, conheceu sua grande paixão: o atletismo. Hoje, aos 37 anos, já escreveu uma das mais belas histórias do esporte paraolímpico mundial. Bronze nos 800 metros nos Jogos de Atenas, em 2004; bronze nos 400 m, prata nos 100 m e ouro nos 200 m em Pequim, em 2008; e ouro nos 100 m e 200 m em Londres, em 2012. Recordista mundial dos 100 m, 200 m e 400 m rasos na classe T11 (para totalmente cegos), é a atleta mais veloz do mundo na sua categoria. A próxima meta já está definida. “Os Jogos Rio 2016 são parte de um grande sonho que tenho. Correr em casa, diante do meu povo, é incrível”, emociona-se a corredora, que começou o ano olímpico à procura de um novo guia para as Paraolimpíadas do Rio de Janeiro, em setembro.

Jogos Cariocas – Como se aproximou do atletismo?

Terezinha Guilhermina – Tinha 20 anos quando conheci uma equipe de atletismo e natação para pessoas portadoras de deficiência em Betim. Eu queria realmente era correr, mas não tinha sequer um par de tênis, Como tinha um maiô, me inscrevi para a natação. Mas minha irmã Evania, que era governanta, tinha um par de tênis e me deu. E então eu comecei a fazer atletismo. Não houve incentivo financeiro para que pudesse me dedicar às corridas mais curtas, como os 100 e 200 metros, por isso comecei nas longas distâncias, que ofereciam prêmios em dinheiro. Em Atenas, em 2004, ganhei minha primeira medalha em Paraolimpíadas. Hoje tenho a Bolsa Atleta, do Ministério dos Esportes, além de patrocínios da Caixa e do Governo de São Paulo, e também faço parte do Time Nissan. Esses apoios me permitem ter uma equipe competente, que me dá apoio em tudo o que preciso. Para mim, o mais legal de tudo não é o recorde mundial, mas é ser capaz de comprar tudo que você gosta de comer e levar a minha família para comer em restaurantes que desejam. Não foi sempre assim!

Jogos Cariocas – Qual foi seu momento mais emocionante, dentro do esporte?

Terezinha Guilhermina – Vencer a prova dos 100 m rasos em Londres 2012, onde estabeleci um novo recorde mundial, em frente a 80 mil pessoas e onde tive o meu nome catalogado no livro dos Recordes, o “Guinness Book”, como a atleta cega mais rápida do mundo. Seria injusto dizer que uma ou outra prova foi mais importante. Cada conquista tem sua importância singular. Mas os títulos mais importantes ainda estão por vir.

Jogos Cariocas – Como estão suas chances para os Jogos Rio 2016?

Terezinha Guilhermina – Estou na melhor condição física de toda a minha carreira. As chances são maiores para quem tem uma meta e objetivo bem claros. Me dedico para poder conquistar o que há de melhor no que a competição pode oferecer: a medalha de ouro. Me sinto motivada a vencer e dar o meu melhor, para mostrar todo o empenho que aplico diariamente em meus treinos.

Jogos Cariocas – No Mundial do Catar, em novembro de 2015, seu desempenho foi prejudicado pela contusão do guia Guilherme Santana e pela falta de sincronia com o substituto Rafael Lazarini. Já sabe com quem irá correr em 2016?

Terezinha Guilhermina – A relação com o guia é extremamente importante. Treinamos, competimos e fazemos praticamente tudo juntos. O sincronismo, a amizade e a relação têm que ser sempre muito assertivos e fazem parte do dia a dia. Sua presença é fundamental para que eu possa desempenhar o melhor de mim e de nós, como um time, para sempre alcançar os melhores resultados. Estou em fase de reestruturação, buscando o melhor em termos de performance para os Jogos Rio 2016, onde um novo ciclo se inicia já a partir de agora. Desde 2010, meu guia foi o Guilherme Santana, que a partir do final de 2015 passou a se dedicar a projetos próprios. Para meu próximo guia, creio que Deus está preparando o melhor. Em breve, todos o conhecerão.

Jogos Cariocas – Dá para perceber que você é uma pessoa vaidosa. Como lida com a vaidade?

Terezinha Guilhermina – Costumo me arrumar o máximo que posso e sempre trago comigo muita cor. Posso não me reconhecer ou saber exatamente minha fisionomia, mas sempre busco estar bastante colorida e alegre em todas as minhas produções. É desta forma que enxergo minha vida. Tudo o que mostramos por fora é “capa” e o que realmente importa é o que somos por dentro.

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