Entrevistando Titãs

Entrevistando Titãs

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MAI/16 – pág. 58 e 59

Titãs rumo aos Estados Unidos

Eles se conheceram no final da década de 1970 e, influenciados por bandas como Blitz, gravaram uma primeira fita cassete, sem maiores pretensões. A partir da apresentação na Biblioteca Mário de Andrade, no ano de 1981, passaram a fazer shows em várias casas noturnas de São Paulo. Assim, foi o início de uma das bandas de rock mais consagradas do Brasil. Primeiro como Titãs do Iê-Iê, para depois serem conhecidos apenas como Titãs, a banda reunia integrantes experientes, provenientes de bandas como ‘Banda Performática’ e ‘Trio Mamão e as Mamonetes’.
No ano de 1984, assinaram contrato com a major WEA, quando lançaram o primeiro trabalho intitulado Titãs. O disco homônimo inclui a música “Sonífera Ilha”, que rapidamente conquistou as rádios de todo o país, bem como levou a banda aos programas de Raul Gil e Chacrinha. De 1984 para cá, os Titãs passaram por diferentes formações, todas elas sempre muito competentes. Com uma discografia de fazer inveja, foi a partir do disco Cabeça Dinossauro – que a banda conquistou em definitivo público e crítica especializada. Foram vencedores dos prêmios ‘Bizz – Revista Bizz’, ‘Prêmio Multishow de Música Brasileira’, ‘VMB MTV’ e Latin Grammy, e seus sucessos regravados por artistas como Moraes Moreira, Adriana Calcanhotto, Cássia Eller, Biquini Cavadão, Maria Bethânia, Paulo Ricardo, Sepultura, entre outros.

São 34 anos de rock com muita competência

Dos oito integrantes que faziam parte da primeira formação, Tony Bellotto (guitarra), Branco Mello (voz e baixo), Paulo Miklos (voz e guitarra) e Sérgio Britto (voz, teclado e baixo) integram os Titãs hoje – além do baterista Mario Fabre, como músico convidado. Divulgando “Nheengatu”, trabalho mais recente, os Titãs são esperados para apresentações nos Estados Unidos na primeira semana de maio. Em entrevista ao Nossa Gente, Tony Bellotto fala sobre os shows nos Estados Unidos e muito mais. Confira!

Nheengatu, trabalho mais recente da banda

Nossa Gente – Quais são as expectativas para os shows nos Estados Unidos?
Tony Bellotto – As melhores expectativas possíveis. Não é sempre que se pode tocar na nação em que o rock foi criado. Pena que não sobre um tempo para visitar o túmulo do Elvis, em Memphis.

NG – O público pode esperar um show com os sucessos que marcaram a história da banda?
TB – Sim, claro. Faremos um show mesclando os hits de todos os tempos e alguma coisa de nosso último CD, Nheengatu, pra todos saírem satisfeitos e suados.

NG – Serão shows voltados basicamente para brasileiros residentes nos Estados Unidos?
TB – Sim, apesar de que brasileiro é sempre brasileiro, seja em Osaka ou em Aracajú. No fim das contas, tocar em Miami, Atlanta, Geórgia e Boston será como se tocássemos no Rio, Belo Horizonte, Juiz de Fora e Floripa.

NG – As apresentações fazem parte de um projeto voltado ao exterior – em busca de novos mercados?
TB – Já perdemos a ilusão de conquistar novos mercados. Cantando em português fica difícil nos comunicar com o mercado norte-americano. A ideia é tocar para os brasileiros mesmo, o que nos enche de honra e responsabilidade, até mais do que se tocássemos para os gringos.

NG – Ao contrário de artistas da música erudita ou da música instrumental, que desenvolveram carreira também no exterior, os artistas brasileiros de música pop ou rock investiram timidamente em carreira internacional. Na sua opinião, por que o rock/pop brasileiro limitou-se basicamente ao mercado brasileiro?
TB – Não foi por opção dos artistas, mas por contingência de mercado. Como eu disse, fazer rock em português dificulta muito a compreensão da música para outros mercados. Com o samba e o axé, ritmos mais típicos, fica mais fácil.

NG – Depois do colapso de muitas gravadoras, como você vê o futuro na música gravada?
TB – Ah, não consigo ver o futuro. Sigo a máxima dos mestres zen: viva o presente!

NG – Em janeiro o G1 da Globo publicou que, pela primeira vez, o rock nacional não fazia parte do top 100 anual das rádios. Como você vê o cenário artístico do Brasil atualmente?
TB – Vejo o cenário muito medíocre, como quase tudo no Brasil atualmente. Nossa produção cultural é muito chocha. Existem coisas interessantes e criativas, mas ficam à margem, fora do mainstream, infelizmente.

NG – Vocês sempre trabalharam com grandes gravadoras, como WEA e Sony. Como vem sendo trabalhar com a Som Livre, uma gravadora de alto calibre, parte do Grupo Globo?
TB – É bom, pois temos o suporte de uma grande corporação. A Som Livre acredita que o rock volte logo às rádios e à televisão e investe nisso. Em tempo de crise e caos financeiro, social e político, como o que vivemos, o rock torna-se crucial, pois só ele é capaz de criticar e divertir ao mesmo tempo.

NG – A crise que o país enfrenta hoje atingiu também o show business?
TB – Sim, a crise é geral. E o show business é um dos primeiros a sentir, pois antes de cortar o pão, corta-se o circo.

NG – São 34 anos trabalhando juntos. Como funciona hoje o processo de composição?
TB – Somos bastante versáteis. Compomos de todas as maneiras. Sozinhos, em dupla, trio ou quarteto. E de formas diferentes, uma hora um faz a letra, outra a música, ou fazemos tudo junto.

NG – Trabalhar novas composições no formato ‘quarteto’ é mais fácil?
TB – Melhor do que em octeto, como já trabalhamos. Mas nada é fácil na hora de compor. Até compor sozinho dá trabalho e, às vezes, até mais do que compor em grupo. Mas é instigante!

NG – Nheengatu, o último trabalho de estúdio, foi muito bem recebido pela crítica e público. Você vê esse momento com um dos melhores na trajetória da banda?
TB – Sim, porque Nheengatu nos recolocou no cenário como uma banda relevante e ainda capaz de surpreender, e não só como uma relíquia interessante do século passado.

NG – Abrir um show dos Rolling Stones não é tarefa fácil, não?
TB – Ah, abrir para os Stones é a glória. Escalar o Olimpo dá trabalho, mas quando se chega ao cume, a vista compensa todo o esforço!

NG – Em 2017 a banda comemora 35 anos. Algum projeto especial para celebrar a ocasião?
TB – Tudo isso? Não é possível! São 35 anos, é verdade. Ainda não pensamos em nada.

NG – Existem planos para voltar a reunir ex-integrantes, conforme shows realizados no passado?
TB – Não, dá MUITO trabalho…

NG – Rafael Ramos, que produziu Nheengatu, está cotado para produzir trabalhos futuros?
TB – Sim, nos demos muito bem com o Rafael que, como um aluno aplicado, conhece nossa obra melhor que nós mesmos. O menino é brilhante.

NG – Quais os próximos projetos da banda?
TB – Nada definido ainda, mas esperamos que a passagem pelos Estados Unidos nos inspire com os ventos das velhas plantações de algodão onde o blues foi inventado.

Serviço: www.titas.net

Fotos: Divulgação/ Silmara Ciuffa


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Músico, produtor musical e bacharel em Publicidade e Propaganda, membro do Latin Grammy. Autor do Manual Prático de Produção Musical.