Entrevistando Pepeu Gomes

Entrevistando Pepeu Gomes

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MAR/16 – pág. 50 e 51

Pepeu-Gomes-influenciado-por-Jimi-Hendrix

Pedro Aníbal de Oliveira Gomes, ou simplesmente Pepeu Gomes, aprendeu a tocar violão ‘de ouvido’ em Salvador, sua cidade natal, mas foi com Gilberto Gil que conheceu os discos de Jimi Hendrix. De lá para cá, Pepeu Gomes e a guitarra elétrica nunca mais se separaram. Participou pela primeira vez como guitarrista no show de despedida de Gilberto Gil e Caetano Veloso, em 1969, no Teatro Castro Alves, em Salvador. O show, que precedeu o exílio de Gil e Caetano, foi gravado e lançado em disco no ano de 1972, intitulado Barra 69.

Em 1970, ao lado de Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Galvão e Baby Consuelo, formou o Novos Baianos, grupo que conquistou inclusive reconhecimento internacional. Segundo a revista Rolling Stone, o disco Acabou Chorare, lançado em 1972, faz parte da lista dos cem melhores discos de música brasileira.

Rock, Pop, Jazz, Choro, Samba e muito mais, Pepeu Gomes é um guitarrista virtuoso e versátil. Participou seis vezes do Festival de Jazz de Montreux e das três primeiras edições do Rock in Rio, além de participações no extinto Free Jazz Festival. Com mais de dezesseis CDs solo lançados, além de inúmeras gravações como sideman, é também um hitmaker, responsável pela composição de temas para telenovelas, como Mil e Uma Noites de Amor, A Lua e o Mar e Sexy Iemanjá.

Celebrando os cinquenta anos de carreira, Pepeu Gomes prepara novo CD solo, seguido de shows para a gravação de um DVD, além de shows com o Novos Baianos. A Flórida é um dos melhores lugares dos Estados Unidos para trabalhar e também para viver, declarou Pepeu Gomes em passagem por Orlando. Confira, a seguir, entrevista exclusiva de Pepeu Gomes para o Nossa Gente.

Nossa Gente – Sua carreira musical começou em bandas como Los Gatos e Os Minos. Nessa época, você já havia decidido que seria músico ou tocava apenas por diversão?

Pepeu Gomes – Venho de uma família de músicos, onde minha mãe era professora de piano e meu pai tocava violão. O DNA musical já fazia parte da minha vida. Apenas segui a ordem natural das coisas, me tornando músico e artista.

NG – Então, seus pais que também eram músicos o apoiaram?

PG – Não muito, pois queriam que eu fosse funcionário público e tocasse apenas nas horas vagas, assim como também queriam o mesmo para os meus irmãos mais velhos. De alguma forma, eu tentei, mas a música falou mais alto em minha vida.

NG – Ter iniciado a carreira no show Barra 69, que precedeu o exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso, mudou o direcionamento de sua carreira?

PG – Sim, mudou muito, pois foi no show Barra 69 que eu pisei no palco profissionalmente tocando guitarra pela primeira vez. Antes desse show, meu instrumento era o contrabaixo.

Novos Baianos

NG – O segundo disco do Novos Baianos, Acabou Chorare, lançado em 1972, faz parte da lista dos cem melhores discos de música brasileira, segundo a revista Rolling Stone. Você se recorda dos detalhes das gravações, do processo de escolha do repertório?

PG – Sim, me recordo de algumas coisas. O disco foi gravado em quatro canais e tocávamos todos ao mesmo tempo. O critério para a escolha do repertório foi muito prazeroso. Além das músicas que foram gravadas e entraram no disco, sobrou conteúdo para o disco Novos Baianos Futebol Clube.

NG – O Novos Baianos foi uma grande escola para todos os músicos que integraram a banda. De lá, todos seguiram carreiras solo e consagraram-se. Existe a possibilidade de reunir o grupo para a gravação de um novo trabalho ou para realizar shows?

PG – Para realizar shows, sim. Estamos preparando um encontro do grupo para um show de inauguração da Concha Acústica, em Salvador, no dia 1° de maio de 2016. Quanto à gravação de disco, não temos projetos para o momento.

Pepeu e Baby

NG – A parceria Pepeu Gomes e Baby do Brasil conquistou o cenário pop brasileiro. Músicas em novelas, cabelos coloridos e muita projeção nacional. Como resume aquele período?

PG – Foi um período muito bom para nós e para o Brasil. A música brasileira era valorizada nas rádios e nos programas de televisão. Foi ótimo para nós, pois estávamos no início de nossas carreiras e precisávamos daquela divulgação para a continuidade de nosso trabalho.

NG – E como foi voltar a tocar com Baby e Pedro no Rock in Rio?

PG – Foi bom demais. Além do show maravilhoso que fizemos, conseguimos resgatar a relação familiar que estava esquecida por alguns anos.

Entre Seis Cordas

NG – Em que momento a guitarra elétrica passou a fazer parte de sua vida?

PG – Aos 16 anos, eu era contrabaixista, quando fui convidado por Gilberto Gil a passar alguns dias em sua casa para ensaiarmos para o show Barra 69. Naquela ocasião, ele me apresentou o disco Smash Hits, de Jimi Hendrix, e, a partir de então, não tirei mais o disco da vitrola. Fui dormir contrabaixista e acordei guitarrista!

NG – Jimi Hendrix foi, indiscutivelmente, sua principal influência.

PG – Jimi foi, e sempre será, minha grande influência. Na minha opinião não aparecerá tão cedo neste planeta um guitar hero com tanta musicalidade como a que ele tinha.

NG – Além de virtuoso, você também é versátil, uma vez que transita com habilidade entre o Rock, o Pop e os ritmos brasileiros. O baile foi a sua principal escola?

PG – Não foi somente o baile a minha principal escola. Fiz muitos bailes, mas mergulhar nas raízes da música brasileira e conhecer João Gilberto, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Pixinguinha e Ary Barroso foi a minha Berklee tupiniquim. Tudo que aprendi de harmonia e conhecimento da música brasileira, devo a esses talentosos e consagrados brasileiros. São brasileiros com letras maiúsculas.

NG – Seus instrumentos são customizados. Quem é o luthier responsável pela construção?

PG – Sempre gostei de construir os meus próprios instrumentos e sempre tive a colaboração de grandes luthiers pelo mundo. Atualmente, o Roberto Santana, de São Paulo, é quem cuida do meu setup de guitarras, violões e bandolins.

NG – E os processadores?

PG – Passei um bom tempo usando processadores digitais, mas agora voltei a usar somente pedais de boutique, que têm oferecido um resultado favorável para as minhas performances.

NG – Você tem contratos de endorsement ou parceiros na indústria de instrumentos musicais?

PG – Não, inclusive tentei ir a NAMM Show este ano para quem sabe fechar parcerias e contratos de endorsement para os equipamentos que preciso. O pouco tempo que estive nos Estados Unidos este ano não foi o suficiente para que eu fizesse isso. Não vão faltar oportunidades para encontrar as pessoas na hora certa e fechar um bom negócio.

Música

NG – As facilidades para que os jovens toquem um instrumento hoje são inúmeras. No entanto, a música vive um momento obscuro.

PG – Vejo que a música vai bem mal no Brasil. Esqueceram do legado que os grandes mestres deixaram de graça para que as pessoas estudassem e aprendessem. A música está sem harmonia, sem bons acordes e sem forma. Acho que precisamos de mais bandas como Novos Baianos, Secos e Molhados, Nação Zumbi e Tropicália, e assim podermos mudar um pouco o cenário musical.

NG – E quanto ao futuro da música gravada? Um novo formato para a comercialização deve surgir ou a música vai se limitar ao formato ao vivo?

PG – Acho que o futuro é a internet. Apesar de ainda não termos o controle do direito autoral, acho válido mesmo assim. Perde-se por um lado e ganha-se por outro.

NG – Você se envolve no processo de produção musical operando equipamentos e softwares, ou prefere se concentrar na execução e arranjos?

PG – Claro que sim! Opero os equipamentos em geral. Sou louco por estúdio e passo praticamente o dia todo nele! Atualmente estou fazendo a pré-produção do meu novo CD cantado, que comemora os meus cinquenta anos de carreira. Será gravado em Porto Alegre, pela produtora Audio Porto, e faço questão de participar de tudo.

Exterior

NG – A recente viagem a Orlando e Nova Iorque é parte de um projeto para excursionar pelos Estados Unidos?

PG – Não, viajamos de férias em família e foi maravilhoso! No início de maio, estaremos em tour pelo Brasil com o projeto em comemoração aos cinquenta anos de carreira. Vamos passar por países da America Latina e quero passar pelos Estados Unidos, país que amo tocar.

NG – De uma maneira geral poucos são os artistas brasileiros que investiram em carreira no exterior. As gravadoras brasileiras foram as responsáveis pela falta de investimento em seus artistas fora do Brasil ou o Brasil é grande demais e basta ao artista brasileiro?

PG – As gravadoras no Brasil acabaram, literalmente! Com a chegada da internet, o mercado enfraqueceu e acabou aquela história de ´vamos lançar um cd de tal artista e investir uns milhões´. Hoje as poucas gravadoras que resistiram a crise ganham porcentagem dos shows dos artistas para investirem em marketing. Não acho que o Brasil é grande o suficiente para os artistas brasileiros, pelo menos para mim. O que eu acho que ainda falta em minha carreira é conquistar os mercados norte-americano e europeu. Não tenho dúvidas que tenho bagagem para isso.

NG – Investir em carreira internacional faz parte de seus planos?

PG – Não só investir na carreira, como também morar alguns anos na Flórida que, na minha opinião, é um dos melhores lugares dos Estados Unidos para trabalhar e também para viver.

NG – E quais os outros planos?

PG – Além do CD que vou lançar este ano, com músicas inéditas, também vou fazer um tour com os grandes sucessos de minha carreira e gravar um DVD contendo o material do novo CD. Começo a gravar entre os meses de julho e agosto deste ano.


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Músico, produtor musical e bacharel em Publicidade e Propaganda, membro do Latin Grammy. Autor do Manual Prático de Produção Musical.