Entrevistando Cesar Camargo Mariano

Entrevistando Cesar Camargo Mariano

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ABR/16 – pág. 50 e 51

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Aos 13 anos de idade Cesar Camargo Mariano ganhou de seu pai, professor de música, um piano. Nove meses depois foi convidado pela trombonista norte-americana Melba Liston a participar de concerto em um clube de jazz, no Rio de Janeiro.

Talentoso e tocando de ouvido, passou a ser conhecido como ‘o menino-prodígio que toca jazz’, após apresentação na rádio Globo do Rio de Janeiro. Em 1958 trabalhou como ‘dublê’ de Nat King Cole nas propagandas dos shows de Nat exibidas na TV Record e assim, sempre surpreendendo, começou a carreira muitíssimo bem sucedida do menino e seu piano.

Ainda na década de 60 formou o principal grupo de baile do Brasil, o ‘Três Américas’. No início do movimento bossa nova fez parte do ‘Quarteto Sabá’, e junto com Airto Moreira e Humberto Clayber formou o ‘Sambalanço Trio’. Foi o responsável pela fusão jazz-bossa, com a gravação do ‘Octeto Cesar Camargo Mariano’ – tendo na base o ‘Sambalanço Trio’.

Em 1971 foi convidado por Elis Regina a participar do álbum ‘Elis’, bem como dos outros seis álbuns seguintes da cantora. Cesar e Elis foram casados por onze anos, e do casamento nasceram Pedro Mariano e Mariana Rita. Também é pai de Marcelo Mariano, baixista, compositor e produtor musical – fruto do casamento com Marisa Gata Mansa -, e de Luísa Camargo Mariano, filha do pianista com a atual esposa Flávia Mariano, produtora musical.

Entre palcos e estúdios, Cesar Camargo Mariano é arranjador, produtor musical e compositor, responsável por uma discografia invejável, bem como trilhas para filmes e programas de TV. Reconhecido internacionalmente, ganhou prêmios como Latin Grammy – nos anos de 2006 e 2007 -, APCA, TIM e Sharp.

Radicado nos Estados Unidos desde 1994, esteve no início de Abril se apresentando no ‘Jacaré a La Jazz’, na Universidade da Flórida, ao lado de Ulisses Rocha, Renato Martins e da UF Jazz Band. Confira a seguir entrevista exclusiva de Cesar Camargo Mariano para o Nossa Gente.

Nossa Gente – De abril de 1994 até os dias de hoje seu endereço é os Estados Unidos. Qual foi a principal razão para viver aqui?

Cesar Camargo Mariano – Na época, como já tinha uma carreira consolidada no Brasil, senti vontade de ampliar os horizontes, conhecer outra cultura musical e encarar novos desafios.

NG – Ano passado, em entrevista, você comentou que os norte-americanos consideram os brasileiros os maiores melodistas. Você tem a mesma opinião?

CCM – Por um lado concordo plenamente, mas por outro, também admiro profundamente os compositores americanos. Do jazz ao pop. Afinal, eles foram, e ainda são, a nossa fonte. Ouvíamos suas obras desde criança, através de gravações e das trilhas sonoras dos filmes e das novelas de rádio.

NG – A concorrência aqui nos Estados Unidos é muito grande, e para músicos brasileiros a situação não é diferente. Que balanço faria para os vinte e dois anos vivendo nos Estados Unidos?

CCM – Na verdade nunca me preocupei muito com isso, porque vim para os Estados Unidos para exercer e ampliar minha profissão de músico, produtor e arranjador, e apesar da concorrência, venho conseguindo, sem atrapalhar ninguém e sem ninguém me atrapalhar (risos). Acho que a concorrência existe não por causa do ‘excesso de contingente’, e sim pelo cuidado com a especialização e o sério compromisso com a qualidade. Portanto, considero isso saudável. Se o Brasil promovesse a criação de especialistas de alto nível e respeitasse os que lá existem, valorizasse o profissional que primasse pela qualidade, tivesse isso como quesitos essenciais para manter viva a nossa música e respeitar nossas artes, tenho certeza que haveria uma ‘concorrência saudável’, que sob este ponto de vista, acho positiva.

NG – Com a falência da indústria fonográfica o artista é quem administra a própria obra sob todos os aspectos. Na sua opinião, qual o futuro da música gravada?

CCM – Como a maioria, eu também não tenho a menor ideia.

Jacaré a La Jazz

NG – A convite de Ulisses Rocha e do ‘Center for Latin American Studies’, da Universidade da Flórida, você participou do projeto ‘Jacaré a La Jazz’. Foi bom voltar a dividir o palco com velhos amigos, não?

CCM – Sem dúvida. Nos conhecemos no início dos anos 80, e o convidei a participar de um projeto instrumental que estava montando, chamado ‘Ponte Das Estrelas’. Lá começou uma forte amizade, com grande respeito e admiração mútua, o que nos levou a fazer vários outros projetos. Hoje, mais uma vez, nos encontramos para dividir um mesmo palco. Isso é muito bom.

NG – O repertório apresentado foi baseado em suas composições?

CCM – Tocamos algumas composições minhas, como também de outros autores.

Brasil

NG – O Brasil passa por uma forte crise e muitos patrocinadores reduziram orçamento para apoio as iniciativas culturais. O que isso significa para a música brasileira?

CCM – Um grande problema. O Brasil tem um sistema de apoio à cultura através de incentivos fiscais. Trata-se de um sistema que deveria ajudar, mas não acontece bem assim. Os projetos aprovados ficam à espera dos investidores que, por sua vez, escolhem os artistas ‘em evidência’ naquele momento, investindo fortunas em projetos milionários para divulgarem suas marcas ao grande público. Os projetos referentes aos artistas novos, ou projetos que não possuem mais espaço nas rádios ou na televisão, como a música instrumental, e que são dez, às vezes cem vezes mais baratos e de qualidade artística superior, ficam nas gavetas esperando patrocínio. Isto significa um achatamento no desenvolvimento da música brasileira.

NG – Trabalhar junto a emissoras de televisão como a TV Record e a TV Globo renderem muitos frutos. Você continua realizando trabalhos para televisão?

CCM – Adoraria fazer um programa como o que fiz na TV Manchete (Rio) durante quase dois anos, comandando um programa semanal de encontros musicais. Infelizmente a televisão no Brasil hoje em dia não dá mais espaço para a música de qualidade.

NG – Recentemente Azael Rodrigues (baterista que trabalhou com Cesar Camargo Mariano) nos deixou. Você vinha trabalhando com ele em apresentações no Brasil?

CCM – Fomos parceiros em espetáculos que criei, como ‘Prisma’ e ‘Ponte Das Estrelas’, ambos de música instrumental. Um músico competente, amigo, criativo, ótimo professor e uma pessoa maravilhosa.

NG – A Samambaia Music é também sua gravadora?

CCM – Não. É um selo e uma editora para atender e administrar meus trabalhos. Não tenho gravadora.

Carreira

NG – Dentre os muitos trabalhos que realizou, o ‘Sambalanço Trio’ foi muito marcante. Qual a sua relação com Airto Moreira atualmente?

CCM – Quase nenhuma. Foi um tempo muito bom, um trabalho marcante também para nós, mas nossos caminhos tomaram rumos diferentes.

NG – Pedro Mariano e Maria Rita. Como é ser pai de grandes jovens artistas?

CCM – Uma coisa muito natural. Como pai, sempre respeitei a vontade de cada um, mas casualmente todos escolheram trilhar a carreira musical. Tenho também um filho mais velho, Marcelo, baixista, compositor e produtor, e uma filha caçula, Luisa, que trabalha na área de produção musical e arranjos vocais, e que também tem uma belíssima voz. Acho interessante ver os filhos navegando na mesma direção que a sua, porém em rios diferentes. Acho que todo pai gosta disso.

NG – Solo, duo, com orquestra ou gravando trilhas para cinema e televisão. Sua carreira, além de bem sucedida, é bastante diversificada. Entre palco e estúdio, qual o tipo de trabalho que prefere realizar?

CCM – Gosto demais dos dois. O trabalho nos estúdios considero ser artístico-cerebral, um grande laboratório, onde registramos nossas idéias. Nos palcos, lidamos com a performance, com a adrenalina. Um completa o outro.

NG – Com mais de cinquenta anos de profissão, o que falta na carreira de Cesar Camargo Mariano?

CCM – Graças a Deus ainda falta muita coisa! (risos). Recentemente realizei um projeto que sempre sonhei, mas que parecia uma coisa muito distante, quase impossível, não só musicalmente falando, como em termos logísticos e econômicos. Entretanto, em Outubro passado realizei este sonho, gravando um DVD/CD, que será lançado agora em Julho. Portanto, ainda falta muita coisa a ser feita. Muitos outros sonhos à serem realizados, que ainda estão na gaveta.

Serviço:

www.cesarcamargomariano.com

www.facebook.com/cesarcamargomariano


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Músico, produtor musical e bacharel em Publicidade e Propaganda, membro do Latin Grammy. Autor do Manual Prático de Produção Musical.