ECO. Uma máquina de escrever, um par de baquetas e muito assunto sobre bateria

ECO. Uma máquina de escrever, um par de baquetas e muito assunto sobre bateria

Edição de julho/2018 – p. 50

ECO. Uma máquina de escrever, um par de baquetas e muito assunto sobre bateria

Aprender com os melhores bateristas do mundo. Esse foi um motivo mais que suficiente para que eu e meu amigo Cássio Leite, também baterista, publicássemos a primeira revista de bateria da América Latina – a ECO. Seguindo os mesmos passos da norte-americana Modern Drummer, publicada nos Estados Unidos desde janeiro de 1977, a ECO também esteve totalmente comprometida com o assunto, trazendo entrevistas, dicas, classificados e material didático.

Com uma porção de ideias em nossas cabeças, uma máquina de escrever – sim, porque não existiam computadores para uso doméstico naquela época! – e muita vontade de falar sobre o assunto, iniciamos o ousado projeto em março de 1987. Em dezembro de 1988 a primeira edição da ECO passou a ser comercializada em todo o Brasil, sendo também a primeira publicação segmentada do mercado musical brasileiro.

Capa da terceira edição da revista ECO a primeira revista de bateria e percussão da América Latina

Como publishers tivemos a possibilidade de bater papo com bateristas como Tony Willians, Max Roach e Gerry Brown, bateristas que se confundem com a própria história da bateria. Já como bateristas tivemos a oportunidade de aprender com lições de música e de vida juntos aos nossos ídolos enquanto os entrevistávamos.

Após a publicação de algumas poucas edições, a ECO deixou de circular em território nacional. Crise econômica, falta de anunciantes e inadimplência interromperam a continuidade do projeto.
Hoje, trinta anos depois, ao Nossa Gente traz trechos de entrevistas com Tonny Willians, além de material exclusivo com Vinnie Colaiuta e Steve Gadd – entrevistas que não chegaram a ser publicadas na ECO.

Steve Gadd

ECO – Quem é Steve Gadd?

Steve Gadd – Não sei quem sou hoje, estou tentando descobrir (risos). Sou um pai que tem dois filhos do primeiro casamento, e mais dois com minha atual esposa, Carol.

ECO – Steve Gadd é responsável por influenciar gerações de bateristas. Você considera Dave Weckl um dos bateristas que sofreram essa influência?

SG – Nunca dei aula para o Dave, embora já tenha ouvido ele dizendo que sofreu influências do meu estilo. Provavelmente foi só por me ouvir, que é assim que muita gente aprende. Tenho muito respeito pelo Dave, como baterista, músico e também como homem de negócios. Ele cuida muito bem dos seus negócios.

ECO – Você gostou de ter sido convidado por Dave para gravar Master Plan?

SG – Para mim foi uma grande honra ter sido convidado para gravarmos uma faixa juntos.

ECO – A música latina vem sendo fonte de inspiração para bateristas de todo o mundo. Você também sofreu influências desse gênero musical?

SG – A música latina me inspirou muito. Amo o samba e adoro ouvi-lo. Não sei quanto a outras pessoas, mas a música latina me afetou muito, assim como para Chick Corea, que busca muito nessa música.

Vinnie Colaiuta

ECO – Você ainda estuda diariamente?

VC – Tenho tentado, apesar da dificuldade de praticar enquanto estou na estrada. Em casa estudo, no mínimo, uma hora diariamente.

ECO – Quais exercícios?

VC – Os execícios básicos como, single-stroke, double-stroke e flams.

ECO – E os métodos de independência?

VC – É uma questão de imaginação. A ideia é pegar um grupo de strokes e variar o máximo possível, deixando a imaginação livre para usar esse estudo de forma inconsciente. Por uma questão de persistência, o exercício é memorizado e os músculos, por serem mais lentos que a mente, tornam-se treinados pela repetição. Superando o consciente, começa o improviso. É esse o objetivo. Estudando com um professor, por exemplo, você pode estar improvisando a partir do momento que ele passa um exercício e você muda uma nota.

ECO – Algo assim como aplicar uma ideia imediatamente?

VC – Sim, quando seu físico deixa de ser um obstáculo, um exercício passa a ser música. Os estudantes devem compreender que muitos livros foram escritos para depois serem tocados, mas isso não quer dizer que as notas escritas sejam música. São apenas notas e jamais iremos interpretar como quem as escreveu, mesmo lendo exatamente com está escrito.

ECO – Então os livros interferem na musicalidade?

VC – O que quero dizer é que tem muitos bateristas tocando bem, simplesmente porque tocam música. O que tocam não são apenas exercícios prontos tirados de algum livro. Também não sou um ganster contra os livros. Eles são importantes, mas a interpretação é muito relativa de leitor para leitor. O melhor é saber utilizá-los para que não limitem a sua musicalidade.

ECO – Quer dizer, aprender com livros não é simplesmente copiá-los?

VC – É o único caminho para tocar livremente. Penso apenas em deixar o corpo livre para corresponder ao que minha mente quer fazer. Se errar, vou poder corrigir. Prefiro assim, em vez de pensar quatro compassos antes o que vou fazer.

Tony Willians

ECO – Por que a opção por três surdos?

TW – São mais opções de tons graves. Meus tom-toms sobre o bumbo são de tonalidade muito alta e contrastam com o grave do bumbo.

ECO – Você usa a mesma baqueta para tocar e estudar?

TW – Uso sempre o mesmo tipo de baqueta, todo o tempo.

ECO – Como foi seu aprendizado musical?

TW – Quando comecei a tocar tinha 9 anos de idade e vivia em Boston, Massachussets. Aos 12 anos tive minhas primeiras lições para aprender leitura musical, e comecei a tocar com a orquestra de Jack McLean, um saxofonista de Boston que me convidou para tocar em Nova Iorque. Lá as coisas aconteceram.

ECO – E suas influências?

TW – Minhas influências? Bem, Max Roach, Philly Jo Jones, Art Blakey.

ECO – Que tipo de exercício você pratica?

TW – Eu não pratico mais.

ECO – E quando praticava, quanto se dedicava diariamente?

TW – Eu praticava por volta de oito horas por dia; no mínimo duas horas, mas normalmente oito horas.

ECO – Qual de seus trabalhos você considera o melhor?

TW – O próximo.

Foto em destaque: Sallaberry e Steve Gadd