Cirurgia bariátrica no combate à obesidade

Cirurgia bariátrica no combate à obesidade

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NOV/2015 – pág. 06 e 10

A obesidade é fator crucial no desenvolvimento de doenças crônicas – cardíacas, respiratórias, diabetes, hipertensão e alguns cânceres. A equipe do “Nossa Gente” conversou com o médico, André Teixeira, renomado e conceituado especialista em cirurgia bariátrica dos EUA, que alerta sobre o perigo iminente

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Em meio ao caos diário com o excesso de refeições gordurosas, guloseimas, estresse e ansiedade, o corpo humano torna-se refém de um dos males do mundo moderno, a obesidade. O acúmulo de gordura causado quase sempre por um consumo excessivo de calorias, superior ao valor usado pelo organismo para sua manutenção e realização das atividades do dia a dia, provoca uma série de danos ao organismo. O peso excedente é um fator crucial no desenvolvimento de doenças crônicas – cardíacas, respiratórias, diabetes, hipertensão e alguns cânceres -, bem como a morte prematura. Novos estudos têm demonstrado que os riscos de saúde da gordura corporal excessiva estão associados a aumentos relativamente do peso, não apenas à obesidade acentuada. Pessoas obesas, preocupadas com a ameaça iminente, têm consultado especialistas em cirurgia bariátrica (redução do estômago), na tentativa de reparar o problema. A equipe do “Jornal Nossa Gente” conversou com o médico, André Teixeira, brasileiro, um dos mais renomados e conceituados especialista em cirurgia bariátrica dos EUA para entender melhor o assunto. Também formado em cirurgia geral pelo “Orlando Health”, com formação em Biologia e Química, ele herdou de sua família, a maioria médicos, o talento e a dedicação à profissão, dispondo de horas ininterruptas de trabalho, mantendo o bom humor que lhe é peculiar.

O encontro com o especialista André Teixeira aconteceu no “Bariatric & Laparoscopy Center”, do Hospital “Orlando Health”, em Orlando, após ele ter deixado a sala de cirurgia. Dinâmico e falante, o médico evidenciou a paixão pela medicina, do comprometimento em ajudar pessoas e salvar vidas. “A família do meu pai há quatro gerações se dedica à medicina. Meu pai é clínico geral, meu tio cirurgião e temos um ginecologista na família. Eles estão em Recife, mas se formaram aqui, nos Estados Unidos”, relata. “Sempre me identifiquei com a medicina, no intuito de ajudar pessoas. Não me vejo em outra profissão, estou sempre me movendo, buscando aprimorar o meu trabalho. A cirurgia é algo natural para mim. As aulas de Anatomia, na Universidade, sempre foram fáceis, enquanto que para os outros colegas era uma dor de cabeça. Tenho uma visão tridimensional das coisas. Sabia exatamente o que estava ocorrendo à frente, atrás, do lado esquerdo ou do lado direito. Esse era o meu caminho. A única dúvida, a princípio, era em qual especialidade me dedicar: cirurgia plástica, cirurgia carga torácica ou cirurgia bariátrica. Apliquei no fellowship para cirurgia de invasão mínima, cirurgia de câncer no esôfago e estomago. Fiz também muitas cirurgias bariátricas e acabei me identificando com os pacientes”, relata.

Jornal Nossa Gente – Com os avanços da Medicina, novos tratamentos para conter a obesidade vêm sendo aplicados, inclusive, o balão intragástrico. O senhor pode falar a respeito desse tratamento?

André Teixeira – No Brasil e na Europa já colocam o balão intragástrico há muitos anos. Nos Estados Unidos esse método foi aprovado há dois meses e meio. O balão é introduzido endoscopicamente pela boca, em torno de 450 a 700 mls. Ele é siliconado e parece uma prótese de silicone quando está cheio. Ele ocupa determinado espaço do estomago e o paciente se sente cheio. E o estomago quando se dilata envia mensagem para o cérebro avisando que está cheio, portanto, não adianta a pessoa tentar comer em excesso porque não vai aguentar. O balão pode ficar no estomago até seis meses.

JNG – E qual o monitoramento, quais os cuidados que o paciente precisa ter para manter o balão intragástrico?

AT – Mensalmente o paciente vem à clínica para os exames periódicos, fazer o acompanhamento com a nutrição, que é a parte mais importante. O balão muda o comportamento do paciente, inclusive, psicológico. O paciente tem seis meses para se adequar ao método. Ele pode tirar um balão e colocar outro, sem problemas. Eu injeto o balão com o azul de metileno (composto aromático heterocíclico, sólido verde escuro). Agora, se o paciente começar a urinar esverdeado, é sinal de que balão furou, o que é muito raro. Isso não irá prejudicar nenhum outro órgão, eu troco o balão imediatamente.

JNG – Qual o perfil desse paciente? Esse tratamento é feito por vaidade, enfim, qual a necessidade desse método?

AT – Muito raro o paciente que se submete a esse tratamento por vaidade. A maioria é por problemas de saúde. O balão deve ser usado em pessoas que tem o IMC (Índice de Massa Corporal) de 30 a 40, que foi aprovado nos Estados Unidos. É um cálculo de altura pelo peso. A perspectiva é que sessenta por cento da sociedade americana tenha o IMC acima de 30, ou seja, uma população obesa. Em 2030, cerca de 30 por cento da população da Flórida vai estar com o IMC acima de 30.

JNG – Esse tipo de cirurgia é feita com frequência no Brasil?

AT – As cirurgias que são feitas aqui, estão sendo feitas no Brasil. Fazemos todas elas via laparoscopicamente, com pequenos cortes, e via robô. Introduzimos o balão via endoscopicamente, pela boca; fazemos a banda via laparoscopicamente; a sleeve via laparoscopicamente ou robótica; o Bypass do estomago é uma cirurgia um pouco mais complicada para pacientes com o IMC acima dos 50, com resolução muito boa da diabetes de até noventa e oito por cento.

JNG – E quais os resultados quanto à perda de peso, a médio ou a longo prazo? Há uma estimativa quanto a isso?

AT – Isso vai depender do tipo de cirurgia. Tem cirurgia que faz o paciente perder o peso mais rápido e outras, a perda de peso é mais lentamente. Por exemplo, a sleeve, cirurgia mais popular no momento, pelo fato de ser mais fácil e não requer uma reconstrução do intestino, tem a preferência dos pacientes. E o paciente perde até setenta ou oitenta por cento do peso. Mas há um detalhe imprescindível: a manutenção é diferente. O paciente tem que ter consciência de que qualquer cirurgia que faça é uma ferramenta. Ele tem de mudar o comportamento, ter uma alimentação saudável com mais proteína e menos carboidrato. Acrescentar atividades físicas e evitar refrigerantes que é veneno para o organismo. Evitando isso, a cirurgia será um sucesso e vai durar para o resto da vida.

JNG – E quais os efeitos da obesidade na Comunidade Brasileira?

AT – Se você comparar os brasileiros que moram aqui com os brasileiros que residem no Brasil, com a mesma faixa etária, verá que os brasileiros daqui estão muito mais gordos. Já operei vários brasileiros, com IMC de 33, relativamente normal, que pagavam até oitocentos dólares por mês na compra de insulina. Eles pagaram alto para fazer a cirurgia, mas terão que desembolsar oitocentos dólares por mês. O que mata é o diabetes e a pressão alta. No Brasil, as pessoas andam mais. Aqui, por qualquer motivo, usa-se o carro. Não fazemos muitas atividades físicas e o índice de estresse é muito grande.

JNG – A incidência de cânceres é preocupante. Isso seria consequência do estresse, da forma incorreta na alimentação? O que colabora para o desenvolvimento da doença?

AT – Têm alguns estudos, já publicados, que afirmam que há uma correlação entre a obesidade e o câncer. A pessoa obesa tem mais probabilidade para ter câncer de mama, próstata, cólon, intestino grosso. Aumentou muito essa incidência e já é uma epidemia porque cresceu o número de pessoas obesas. Há quarenta anos não existia esse contingente de pessoas com câncer no intestino grosso. E o paciente está cada vez mais jovem. Pessoas com vinte oito e trinta anos têm câncer no intestino grosso. É preocupante. E a recuperação, dependendo do caso, vai exigir um tratamento intensivo.

JNG – O hospital disponibiliza algum programa para pessoas obesas e que não podem arcar com os custos da cirurgia?

AT – Olha não é fácil encontrar um programa assim, mesmo na Internet. Isso vai depender do médico em doar a cirurgia, do hospital doar, entende? Às vezes é doada uma cirurgia por ano, mas é preciso fazer um levantamento criterioso sobre isso.

JNG – Os planos de saúde aceitam essa cirurgia?

AT – Todo plano de saúde nos Estados Unidos aceita a cirurgia bariátrica, mas a cirurgia bariátrica precisar estar inclusa no seu plano. Isso é importante.

JNG – Custa caro a cirurgia bariátrica? O senhor pode especificar valores?

AT – A introdução do balão, para colocar e retirar, custa seis mil e duzentos dólares em um único pacote. A sleeve, cirurgia mais popular, custa quatorze mil e quinhentos dólares. Mas os preços estão sendo reajustados e vão ficar mais baratos. Tenho muitos pacientes brasileiros, principalmente pessoas em férias, que são surpreendidas por um mal súbito.

JNG – Deixando a Medicina e voltando-se para hábitos pessoais, fala-se que o senhor jamais prescreveria uma receita com caneta que não fosse de tinta azul. Isso é superstição?

AT – (Sorri surpreso) Todo cirurgião tem suas manias. Quando eu era residente, fui escrever uma nota de um paciente que estava na UTI com caneta preta e ele teve séria complicação. Pode ser superstição, mas a partir daquele dia nunca mais usei caneta preta. Só uso caneta azul (sorri). E se faltar caneta azul o nordestino aqui fico bravo (brinca o pernambucano, natural de Recife). Tenho caixas de canetas azuis. No meu consultório não pode faltar caneta azul.

JNG – E quando o senhor vai para a sala de cirurgia, existe algum ritual específico, como tudo se processa? Qual a responsabilidade nessa hora?

AT – O cirurgião quando vai para a sala de cirurgia é como se fosse uma terapia. Você está na sua área, no seu habitat. Ali eu comando e ninguém me estressa. Ouço a música que eu quero, faço do jeito que acho conveniente, compreende?. Sou outra pessoa. A diferença é que sou muito perfeccionista e nenhum corte cirúrgico ou ponto pode ser dado errado. Tem de ser muito perfeito. Ensino isso aos residentes. Você só tem uma chance: fazer tudo certo. É uma honra muito grande alguém entrar no meu consultório e colocar a sua vida nas minhas mãos.

JNG – Como médico, de que maneira o senhor vê a Saúde no Brasil?

AT – Não gosto muito de operar no Brasil, não é o meu habitat. A profissão de médico no Brasil ficou esculhambada. Não é como na época do meu pai, do meu avô, que o profissional era respeitado, que estudava muito. Hoje em dia não é assim. O ´Programa Mais Médicos´, criado pelo governo federal, que requisita médicos de outros países, principalmente cubanos, foi um tapa na cara dos médicos brasileiros. E o Brasil passa por um período muito difícil no setor econômico. Nos últimos três anos o país regrediu muito. Nunca se roubou tanto, politicamente falando, como acontece nos dias de hoje, e isso compromete a Saúde no país.

JNG – Como é o seu tempo livre, fora do consultório?

AT – Sou casado com uma recifense, Maria Eugênio, tenho o meu filho Enzo, de quatro anos. Eu trabalho muito, cerca de quatorze horas por dia, mas faço questão de ficar com a minha família nos finais de semana. Adoro praia, sempre vou à praia com a família. Também gosto de viajar.


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Walther Alvarenga