Brasil surpreende com criatividade e simpatia

Brasil surpreende com criatividade e simpatia

Música e a diversidade cultural marcaram a abertura da Rio – 2016, abordando as mudanças climáticas. A pira olímpica teve o menor fogo na história das Olimpíadas, para alertar contra o exagero de gases poluentes no mundo

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Os comentários na imprensa internacional ainda perduram após o recado que o Brasil enviou ao mundo durante a festa de abertura das Olimpíadas de 2016, realizada no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, sob o crivo de mais de quatro bilhões de espectadores. O alerta do aquecimento global, ao longo dos últimos tempos, em razão da poluição do ar resultante das práticas humanas foi um dos pontos altos do evento. Inclusive, o fogo aceso na pira olímpica foi o menor na história das Olimpíadas, justamente para alertar e servir como mensagem contra o exagero de gases poluentes no mundo, em pleno aquecimento. Outro apogeu foi à arte revolucionária através da dança, da música, contadas na história de um país onde o povo é espontâneo e alegre, rompendo com o estigma da formalidade. E os desacertos políticos e econômicos, dessa vez ficaram do lado de fora do estádio, afinal, o momento em que os brasileiros puderam mostrar o seu real valor. De Santos Dumont – sobrevoando o Rio a bordo do XIV Bis -, às favelas e os desfiles das Escolas de Samba, o país exibiu o seu sorriso dourado, contrastando com a imagem do Cristo Redentor, no Corcovado, iluminado com as cores verde e amarelo. Era o símbolo de paz, em meio aos ataques terroristas que vem atemorizando a humanidade. Sem dúvida, o Rio deu uma lição de grandeza no megaevento realizado pela primeira vez na América do Sul.

De forma simples, criativa e dinâmica, a festa teve a direção do cineasta Fernando Meirelles – premiado com o filme “Cidade de Deus” –, de Daniela Thomas, Andrucha Waddington e Rosa Magalhães, que apresentaram o Brasil ao mundo de forma honesta, na essência de simplicidade. E quem pôde assistir, passeou pela história e pela música do país, com canções tradicionais, a exemplo de “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que enalteceu o desfile da modelo Gisele Bündchen, na maior passarela de sua vida. Os índios foram exaltados com sua dança e tradição, a chegada das caravelas portuguesas no Brasil, as favelas nos morros do Rio, entre outras surpresas. Foi uma festa com a animação e a descontração típicas dos brasileiros – sobrou até vaia para tirar onda com a delegação argentina, a única que ouviu apupos do público. Em contrapartida, a delegação de refugiados teve a sua recompensa com o reconhecimento do público quando entrou no estádio, sob aplausos e gritos de incentivo. Outra questão primordial é que os atletas de 206 países receberam uma semente ao entrar no estádio, que foram plantadas no Parque Radical, no Complexo Esportivo de Deodoro, onde foi criada a “Floresta dos Atletas”.

E não faltaram elogios ao Brasil por parte da imprensa internacional. O “New York Times” aproveitou o momento em que Jorge Ben Jor interpretava “País Tropical” e fez o público cantar para dizer: “Você vê que as fantasias e o cenário não são tão luxuosos como os de outras cerimônias, mas isto realmente não importa quando você tem uma energia como esta.” Já o jornal inglês “The Guardian” relatou: “Simples e elegante”, elogiando a maneira como Paulinho da Viola cantou o Hino Nacional brasileiro e a reação do público presente no Maracanã. “Uma festa de música, cores e esporte no Rio de Janeiro, à altura da cidade maravilhosa, com ritmo e beleza”, colocou o argentino “Clarín”. Ainda no país hermano, o “Olé” fez questão de destacar que a delegação do país foi “uma das mais ovacionadas”, o que de fato aconteceu, assim como com a da Alemanha. Surgiram até memes nas redes socais, satirizando aqueles que apostavam que tudo daria errado. O “tiro” saiu mesmo pela culatra, segundo o dito popular.

E apesar dos imprevistos na organização dos jogos, devido ao atraso na entrega de apartamentos para as delegações; na demora da liberação do público para adentrar aos ginásios de esportes, formando longas filas, o Brasil passou pela primeira prova de fogo nas Olimpíadas, mas os desafios continuam. E até o encerramento desta edição, um forte esquema de segurança tentava o controle na situação, embora fossem registrados furtos no Rio de Janeiro. O próprio coordenador de segurança da cerimônia de abertura, um delegado da polícia federal, sofreu uma tentativa de assalto de quatro homens armados com facas ao sair do Maracanã no dia da abertura. E mesmo com forte dispositivo de segurança nas instalações olímpicas, uma bala perdida perfurou a tenda destinada à imprensa no “Centro Olímpico de Hipismo”, em Deodoro, a mais de 30 quilômetros da Barra de Tijuca, e que os organizadores ainda não sabem de onde surgiu. Um grupo de turistas europeus ao desembarcar no Aeroporto Internacional Tom Jobim para acompanhar as Olimpíadas, temia ser assaltado no trajeto para o hotel, mas tudo correu muito bem.

Ameaças de bombas

As ameaças de bomba têm marcado também a rotina da cidade. O esquadrão antibomba mobiliza-se nesses tempos de ameaça terrorista praticamente todos os dias. Em Copacabana, chegaram a explodir artificialmente uma bolsa durante a prova de ciclismo e uma mochila também foi explodida por segurança pela polícia, na Avenida das Américas. Um alarme falso de incêndio fez o prédio do IBC, onde as emissoras de TV transmitem as competições da Rio-2016, ser evacuado. Segundo o Comitê da Rio-2016, o motivo do disparo do alarme foi a troca do software do sistema. Foram 20 segundos de alarme falso de incêndio. Ualace da Silva, operador de segurança, contou que a equipe técnica estava fazendo manutenção no sistema quando o alarme disparou a mensagem de “teste de evacuação” em diversas línguas. A partir de então, as pessoas começaram a deixar o prédio, mas o problema foi rapidamente contornado.
E mesmo diante dos indesejáveis imprevistos, o povo carioca tem se destacado nas ruas e nas arquibancadas dos jogos pela sua alegria e entusiasmo, chamando a atenção dos visitantes estrangeiros. Um povo amigo e conciliador. O nadador Michael Phelps, uma das estrelas da delegação dos Estados Unidos, que ganhou sua 23ª medalha olímpica – a 19ª de ouro nas Olimpíadas do Rio -, admitiu ter sentido muita emoção antes de entrar na água e ainda se derreteu em elogios à torcida no Rio de Janeiro. “Quando estava no bloco, achei que meu coração ia explodir. Estava tão empolgado, tão ansioso”, disse Phelps. “Estava muito barulho, acho que eu nunca ouvi nada assim”, completou. “Esses caras são incríveis”, acrescenta.

O Brasil aposta no melhor resultado, em todos os níveis – competições, segurança e a satisfação dos turistas. Quanto à disputa de jogos, até o encerramento desta edição, no ranking das medalhas o país tinha conquistado a primeira medalha de ouro no Judô, através da judoca Rafaela Silva que venceu Dorjsürengiin Sumiya, da Mongólia, na categoria 57 quilos feminino. Felipe Wu, de 24 anos, conquistou medalha de prata na prova de Tiro Esportivo de ar 10 metros, portanto a segunda medalha do Brasil. Durante a disputa, em Deodoro, ele contou com uma fervorosa torcida brasileira. O jovem chegou a assumir a liderança da prova no penúltimo tiro, mas o vietnamita Xuan Vinh Hoang foi quase perfeito na hora da decisão, atirou no centro do alvo, e ganhou a prova: 202,5 contra 202,1.