Barragens podem ceder e provocar novas catástrofes

Barragens podem ceder e provocar novas catástrofes

E após negar que outras barragens da Samarco Mineradora poderiam ceder em Mariana, representantes da empresa voltaram atrás e admitiram que não está descartada a possibilidade de rompimentos

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Foi a maior tragédia do Brasil o rompimento das barragens de rejeitos de minério da Samarco Mineradora, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, que aconteceu no último dia cinco de novembro e causou uma enxurrada de lama que inundou o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. A catástrofe matou 11 pessoas – 12 continuam desaparecidas – e deixou mais de 500 desabrigados nesse desastre ambiental que contaminou o Rio Doce, desencadeando revolta e críticas pelo país. Um lamaçal tóxico invade rios e ameaça a saúde de moradores em cidades na região. Afinal, qual a veracidade dos fatos? São inúmeros questionamentos em torno do acidente e poucas as fontes confiáveis. E após negar que outras barragens da empresa poderiam ceder em Mariana, lesando ainda mais o Meio Ambiente, representantes da Samarco voltaram atrás e admitiram que não está descartado um rompimento. “Hoje os fatores de segurança para a barragem de Selinha [dique da barragem de Germano] que é menor dos barramentos de Germano, é o 1,22. É o menor fator de segurança que a gente tem”, disse Kleber Terra, Diretor de Operações e Infraestrutura.

Segundo Germano Lopes, gerente-geral de projetos estruturais da empresa, a barragem de Santarém pode se romper caso haja um “fluxo descontrolado” de materiais. “A maior preocupação mesmo, na barragem de Santarém, é a erosão. Então, um fluxo descontrolado passando novamente por cima da barragem, nós poderíamos aumentar, sim, essa erosão e poderíamos ter, sim, passagem desse material que está retido à montante para à jusante”, afirmou. “Esse fluxo descontrolado pode ser provocado por chuvas intensas, fazendo com que uma cheia se formasse dentro da bacia hidrológica das barragens”.

De acordo com os representantes da empresa, obras emergenciais estão sendo feitas nas duas barragens, as obras em Germano vão durar 45 dias e, as da Santarém, 90 dias. Declaram ainda que uma empresa especializada foi contratada para analisar a condição do dique de Selinha. “É difícil falar se vai romper ou não. A gente contratou essa empresa para simular essas condições. Mas como é uma ciência muito complexa, a gente não tem a resposta rápido”, admite Kleber Terra.

A presidente Dilma Rousseff que sobrevoou a área afetada, acompanhada de ministros e do Governador de Minas, Fernando Pimentel, disse vai aplicar uma multa de R$ 250 milhões à Samarco Mineradora. A empresa, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, é responsável pelas duas barragens que se romperam, causando uma enxurrada de lama que destruiu o distrito mineiro de Bento Rodrigues e avança sobre o Rio Doce, causando prejuízos às cidades por onde passa. “A multa preliminar é de R$ 250 milhões por dano ambiental e comprometimento da bacia hidrográfica, dano ao patrimônio público e pela interrupção da energia elétrica”, afirmou Dilma durante coletiva. A presidente disse que os estados atingidos podem também pedir ressarcimento à mineradora. O Ibama confirmou que vai aplicar cinco multas de R$ 50 milhões cada uma.

Em Mariana, o clima é de tensão e tristeza. Familiares não deixam as imediações da arena da cidade, onde as doações estão sendo levadas e onde os desalojados dormiram no primeiro dia. Segundo o prefeito, Duarte Junior, ao menos 545 pessoas tiveram que deixar suas casas e estão alojadas em hotéis da cidade. Pelas ruas, ainda circulam informações desencontradas. Moradores relatam que homens do Corpo de Bombeiros têm orientado as pessoas a não terem contato com a lama porque ela é tóxica, o que a empresa Samarco negou, categoricamente. Bombeiros também monitoram uma terceira barragem, que teria o risco de romper – a estrutura tem ainda uma quarta barragem. Mas um engenheiro da empresa garantiu que nenhuma anomalia foi verificada até o momento.

Lama tóxica

O mar de lama já avançou centenas de quilômetros, atingindo reservatórios que abastecem outras cidades e levantando receios sobre a qualidade da água para consumo. Ao menos 15 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo podem ser afetados. Segundo a prefeitura de Mariana, a onda já atingiu os arredores de Ipatinga, cidade mineira localizada a 229 quilômetros da tragédia, no Vale do Rio Doce, que abastece a região. A prefeitura de Governador Valadares afirmou que os moradores já podem tomar água da torneira, após a cidade vivenciar dias de tensão com a contaminação do rio que abastece o Município. A prefeitura esclareceu que, até o momento, o tratamento tem sido possível nas cidades já afetadas.

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Estima-se que 62 milhões de metros cúbicos de material tenham sido liberados na região, mais do que dez vezes a lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. A barragem de rejeitos serve para armazenar a água utilizada em todos os processos de uma mina, e é comum que ela esteja contaminada com produtos químicos. José Maurício Machado Pires, químico da Universidade Federal de Viçosa e autor de uma tese de mestrado sobre as barragens que se romperam, afirmou que a quantidade de metais pesados encontrados no local é bem baixo. “Os testes que fizemos com amostras de sedimento e de água da barragem apontem índices de acordo com as normas vigentes”, afirma. Pires conclui que o material analisado é inerte, logo não oferece risco para a saúde em caso de contato com a pele. A Samarco produz principalmente pelotas de minério de ferro, cerca de 30 milhões de toneladas anuais, segundo informação do site da empresa.

A Samarco afirma que ainda investiga os motivos do rompimento das barragens. Uma das hipóteses é que o acidente pode ter sido consequência de tremores de terra que foram registrados no Estado pela Rede Sismográfica Brasileira. Mas, segundo o Centro de Sismologia da USP, que processa os dados, não é possível atribuir, até o momento, o rompimento das estruturas aos abalos ocorridos.

O que as barragens continham?

Lama resultante do rejeito da produção de minério de ferro. De acordo com a Samarco, o rejeito é composto, em sua maior parte, por areia e não apresenta nenhum elemento químico danoso à saúde. Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), a lama é composta principalmente por óxido de ferro e areia. A equipe técnica do Ministério Público coletou amostras da lama da barragem para verificar se ela é tóxica ou não. O parecer sobre a tragédia deve ficar pronto no começo de dezembro.