Avanços e desafios da Medicina Reprodutiva

Avanços e desafios da Medicina Reprodutiva

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FEV/2016 – pág. 04 e 06

O “Jornal Nossa Gente” conversou com um dos mais conceituados médicos dos Estados Unidos, especialista em Medicina Reprodutiva, o doutor Celso P. Silva, que esclarece pontos importantes. Os recursos tecnológicos para o tratamento da infertilidade; a gravidez de risco, após os 35 anos; o perigo iminente no contato com hormônios, e os cuidados com o feto no útero

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Especialista em Medicina Reprodutiva e responsável pelo setor de reprodução humana do “Center for Reproductive Medicine (CRM)”, em Orlando – unidade especializada na realização dos mais avançados procedimentos para o tratamento da infertilidade-, o doutor Celso P. Silva é um dos mais conceituados médicos dos Estados Unidos. Ginecologista e obstetra de formação, tem se dedicado aos avanços da fertilização, auxiliando casais no uso dos mais inovadores recursos tecnológicos e a humanização da prática médica. Na era da mecanização, os problemas da fertilidade preocupam as mulheres no mundo, também causando constrangimentos em muitos homens que sonham em poder ser pai. E para esclarecer o assunto, o “Jornal Nossa Gente” se encontrou com o especialista no hospital, ocasião em que o tema foi abordado para os devidos esclarecimentos e orientação aos que enfrentam essa adversidade.

“A minha atividade primária é com medicina reprodutiva, pacientes casais que têm dificuldades para engravidar vêm nos procuram para que possa ser feita uma avaliação sobre os motivos dessas dificuldades. Oferecemos todos os tratamentos disponíveis”, relata o especialista. “Mas exerço outras funções que não estão diretamente relacionadas à medicina reprodutiva, por exemplo, pacientes com endometriose – que pode se manifestar como cólica menstrual intensa, ou dor pélvica/abdominal-, pacientes que têm miomas no útero, tumores benignos no útero,com sintomas e precisam de cirurgia. Essas pacientes são encaminhas pelos seus ginecologistas para que se possa fazer esse tipo de cirurgia. A ideia de fazer cirurgias de endometriose e miomas é ter os cuidados essenciais com a parte reprodutiva para que no futuro essas pacientes não tenham problemas para se engravidarem. Portanto, é extremamente importante a preservação dos ovários ea preservação do útero”, alerta. “De um modo geral, a maioria dos meus pacientes são casais com problemas para engravidarem, por diferentes motivos”, enfatiza Celso P. Silva.

Indagado sobre o período fértil da mulher para se engravidar, evitando a gravidez de risco, o médico fez as devidas observações: “nesse caso, estamos falando de duas situações diferentes. Estamos focando na perda da capacidade reprodutiva que as mulheres têm com o passar do tempo, ao passo que o homem tem capacidade de reproduzir espermas novos diariamente. Agora, o fator idade afeta mais drasticamente a capacidade reprodutiva da mulher do que do homem. A partir dos trinta e cinco anos de idade, a mulher começa a perder a capacidade reprodutiva mais rapidamente. E quando a mulher está com idade entre quarenta e dois e quarenta e cinco anos, a possibilidade de gravidez é muito baixa, mesmo com os tratamentos que temos a oferecer”, esclarece. “E o meu conselho para as mulheres e os casais é que evitem começar a família, a ter filhos, com a idade avançada, evitando as dificuldades. Óbvio que a sociedade hoje em dia, de uma maneira geral, mudou os seus conceitos. Por exemplo, as mulheres entraram no mercado de trabalho e almejam obter seus diplomas, seus aperfeiçoamentos para atingirem uma situação profissional mais estável e depois ter filhos. Entretanto, tudo isso leva tempo. O tempo de ir à escola, de conseguir o diploma, de fazer especialização e de começar a trabalhar. A parte biológica não acompanha esse processo. A parte biológica é inexorável e a mulher vai perdendo a capacidade reprodutiva. É preciso estar atento quanto a isso”, alerta.

“O outro fator é à gravidez de risco em mulheres com idade mais avançada. A partir do momento em que a mulher vai envelhecendo, a começar pelos trinta e cinco anos de idade, a incidência de complicações durante a gravidez é bem maior. É claro que nem todas as mulheres acima dos trinta e cinco e quarenta anos de idade, que estejam grávidas, vão ter complicações, não é bem isso. Têm mulheres nessa faixa etária que estão grávidas e vão muito bem. Mas comparadas com as jovens mulheres grávidas, existe um risco maior de complicação”, complementa.

“Por outro lado, existem as complicações com o bebê”, enfatiza o especialista. “A mulher quando engravida com idade mais avançada, está propensa a um risco maior de doenças genéticas como, por exemplo, a síndrome de down. E, algumas dessas complicações que a mulher possa ter durante a gravidez poderá afetar o bebê, como o trabalho de parto prematuro. Mulheres com idades avançadas têm chance maior de ter um parto prematuro, e de ter um bebê prematuro. E o bebê prematuro geralmente tem complicações”, orienta o doutor Celso. “A idade é um dos fatores mais importantes que temos de lidar no nosso dia a dia aqui na clínica. Um número muito grande de mulheres, com idade maior, tem nos procurado devido a essa mudança social. Com o advento da pílula anticoncepcional nos anos sessenta, as mulheres tomaram a liderança, ou seja, elas controlam o aspecto reprodutivo. São elas que decidem quando ter filhos. A sociedade mudou, as necessidades da sociedade mudaram, mas a parte biológica ainda não acompanhou isso”.

Gravidez não planejada e gravidez indesejada

Abordando outro extremo da fertilização, a gravidez não planejada de meninas que dão à luz aos treze e quatorze anos de idade,o doutor Celso P. Silva esclareceu que, “há dois conceitos nesse caso: a gravidez não planejada e a gravidez indesejada. A gravidez não planejada é o caso de se não planejar para engravidar, mas acontece e você aceita essa gravidez. Já o fator indesejado é o que geralmente acontece entre as adolescentes. E o curioso é que aqui, nos Estados Unidos, pela primeira vez em muitos e muitos anos, a incidência de gravidez na adolescência diminuiu. E isso se deve às campanhas de prevenção à gravidez indesejada. E o maior foco dessas campanhas é à educação sexual, mas com prevenção à gravidez. O conceito que se formou no país com o passar dos anos é de que seria difícil evitar que os adolescentes começassem a atividade sexual. Com isso, as campanhas orientam o adolescente para que faça sexo de forma segura, evitando as doenças sexualmente transmissíveis, incluindo os cuidados com a gravidez precoce. Isso comprova que a educação assume um papel fundamental. Foram muito anos de empenho, campanhas bem feitas foram elaboradas para se chegar a esse consenso. Em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, esse nível de incidência de gravidez na adolescência não abaixa e a tendência é crescer, pois faltam campanhas educacionais bem feitas e bem conduzidas, focadas nesse assunto”, aponta. “E não há dúvida, pois os extremos da idade são comparáveis com relação às complicações da gravidez. E a gravidez na adolescência tem riscos muito maiores do que a gravidez de uma mulher com idade reprodutiva adequada. Mas essa não é a minha especialização porque sou um médico focado na infertilidade. Uma adolescente não vem me procurar porque ela está tentando engravidar, pelo contrário, uma adolescente viria me procurar porque iniciou a sua atividade sexual e gostaria de evitar a gravidez precoce. É imprescindível que os pais orientem bem os seus adolescentes nesse aspecto. O envolvimento dos pais com os profissionais de saúde de atividade primária é muito importante no desenvolvimento desse tipo de prevenção. Criar um tabu ao redor do assunto, ignorar o problema, não é adequado”, explica.

Quanto aos cuidados imprescindíveis na gravidez, evitando situações que possam interferir no desenvolvimento intrauterino, ressaltou o médico que existem dados de alerta às gestantes: o que se passa para o feto no útero terá consequências à criança, até mesmo na vida adulta. “Há estudos que indicam que a incidência de diabetes na vida adulta, em alguns casos, pode estar relacionada com a vida intrauterina. O uso de cigarros, de bebidas alcoólicas, de drogas, a vida sedentária e alimentação não adequada são fatores que podem prejudicar a criança até a vida adulta. As pessoas precisam ser informadas a respeito disso, e muitas mulheres agem erroneamente pela desinformação, não o fazem intencionalmente. Outro ponto fundamental é o pré-natal. A mulher quando engravida deve começar o pré-natal o mais breve possível, mesmo que seja uma gravidez inesperada ou indesejada. É durante o pré-natal que essa educação se inicia, de forma mais efetiva. Neste período, são detectados os problemas que podem ser combatidos com eficácia. As possíveis sequelas podem e devem ser evitadas”, orienta.

Ao mencionar o elemento surpresa, que geralmente afeta o casal, no caso de bebês que nascem com anomalias no cérebro, o médico alertou para os cuidados devidos, mas mantendo-se atento quanto ao sensacionalismo dos fatos. “Hoje as pessoas têm mais acesso a esse tipo de informação, mas é preciso ter cautela, não criar sensacionalismo. A mídia globalizada traz à tona casos que já existiam no passado e que hoje são focados com destaques. O caso de uma criança que nasce com defeito é postado nas redes sociais e as pessoas tomam conhecimento simultaneamente, gerando o alarde. Óbvio que existe a preocupação pela forma como ficamos expostos na sociedade moderna e que pode nos levar a situações graves. Na minha área, por exemplo, existem estudos mostrando que a concentração de espermatozoides na ejaculação do homem vem se decaindo com o passar dos anos. Somos expostos em demasia no dia a dia e isso tem contribuído. Existe muito plástico nos objetos de nosso uso diário. Tomamos água em garrafinhas de plástico, esquentamos alimentos no microondas em recipientes de plástico. Um dos componentes do plástico, no processo da biodegradação, é o estrogênio, que é um hormônio. E o estrogênio em dose aumentada pode diminuir a produção de espermas. E uma das hipóteses para tentar explicar esse tipo de fenômeno quanto a nossa exposição, em condições como essa. Outro exemplo é o uso do inseticida e o uso do hormônio de crescimento na agricultura. Isso tudo,obviamente,muda a biologia das plantas, muda a biologia dos animais que fazem parte de nossa dieta. Existe uma preocupação de que a nossa vida moderna está contribuindo para o aumento de incidência de má-formação congênita, do câncer. O cigarro é o exemplo claro de ser danoso à saúde e que desenvolver o câncer. Em outras coisas, não necessariamente temos relações de causa e efeito. No caso do fumo está provado o câncer e outros tipos de doença”, comenta.

“Na Flórida, estudos dos pântanos mostram que a concentração de esteroides, que são tipos de hormônios, nas águas dos pântanos da Flórida, tem aumentado e isso já afetou a relação de sexo masculino e sexo feminismo em alguns animais. Os sapos, os jacarés, por exemplo, foram afetados. Esses hormônios esteroides têm um papel muito importante na determinação do sexo do animal. E como a concentração desses hormônios no habitat desses animais está mudando, a incidência de sexo masculino e feminino desses animais também está sendo alterada. Existe maior incidência de algumas doenças do aparelho reprodutivo desses animais. O porquê disso parece estar associado aos esteroides no habitat animal”, esclarece o especialista.

Complicações do útero artificial

Em Tóquio, no Japão, pesquisadores desenvolveram uma técnica chamada EUFI (incubação fetal extrauterina). Fala-se do útero artificial, na tentativa de suprir a necessidade de mulheres que não podem ter filhos, devido à retirada do órgão, em virtude do câncer. Consultado sobre o assunto,o doutor Celso P. Silva foi cauteloso na questão. “Foi publicado recentemente um artigo falando do primeiro transplante de útero, feito com sucesso. É uma área muito nova, ainda em desenvolvimento. É muito prematuro dizer qual a aplicação clínica que esse tipo de procedimento vai trazer. Óbvio que a indicação seria para aquelas mulheres que perderam o útero por alguma doença ou complicação durante a gravidez, mas que ainda querem engravidar. E a pergunta para esse tipo de tecnologia é se realmente dominaremos a técnica de transplante de útero em humanos, e qual seria a indicação para estar fazendo isso. Eu acho que a primeira indicação, a mais importante, seriam as mulheres que ainda querem engravidar”, observa o especialista. “Mas isso cria um problema, pois na grande maioria das vezes o transplante de qualquer órgão requer uma gama muito variada de medicações para evitar a rejeição do transplante. E uma boa porcentagem dessas medicações não é possível ser utilizada durante o período de gravidez. Mas é algo muito novo, que está sendo avaliado. O tempo vai mostrar se o transplante de útero é factível ou não”, determina. “Agora, se os ovários da mulher funcionam e ela quer ter filho, a alternativa é a barriga de aluguel, claro, sob a observação médica e os devidos cuidados de profissionais experientes nessa área”, sugere.

Natural da cidade de São Paulo, Celso P. Silva cursou Faculdade de Medicina em Jundiaí – interior de São Paulo -, posteriormente fez residência médica em ginecologia e obstetrícia na Santa Casa de São Paulo. “Quando terminei a residência, no ano de noventa e quatro, já tinha vontade de trabalhar nessa área de medicina reprodutiva. Na época, não existia no Brasil treinamento especial nessa especialização, então me preparei para vir para os Estados Unidos para um estágio de pesquisa”, lembra. “Antes de vir para cá, conheci no Brasil um médico argentino, que tinha feito a sua carreira em medicina reprodutiva aqui nos Estados Unidos. Ele, inclusive, integrou a equipe que fez o primeiro bebê de fertilização in vitro nos Estados Unidos. O médico tinha sido contratado para implantar o departamento de pesquisas no Brasil, na clínica onde eu estava trabalhando. Disse a ele que pretendia vir para os Estados Unidos e prontamente se propôs me ajudar. Ele organizou um simpósio de medicina reprodutiva no Brasil e convidou vários médicos americanos, quando fui apresentado ao doutor David Keef, que me convidou para trabalhar em sua equipe de pesquisas nos Estados Unidos. Cheguei ao país em 1996 e acabei me estabelecendo aqui. Fiz residência médica em ginecologia e obstetrícia na Brown University, em Providence, e especialização em medicina reprodutiva na University of Pennsylvania, na Pensilvania”, conta Celso P. Silva.
“Vim para Flórida a convite do doutor David Keef, trabalhei durante cinco anos na University of South Florida, em Tampa, e estou há três anos na clínica em Orlando”. Casado com Vanessa tem três filhos, Victor, Daniel e Júlia. “A minha esposa e eu tivemos problemas de infertilidade. Não conseguíamos engravidar, fizemos todos os tratamentos. Inclusive, inseminação artificial e nada deu certo. Foi quando optamos pela fertilização in vitro e a Vanessa engravidou de dois meninos – Victor e Daniel. E quando eles tinham cinco meses de vida a minha esposa engravidou novamente, mas naturalmente. Todo esse processo aconteceu após quatro anos de tentativas frustradas. E não foi esse fator que me levou à Medicina Reprodutiva, bem antes já tinha optado por essa especialização”, lembra o médico.


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Walther Alvarenga