As dificuldades para recomeçar no Brasil

As dificuldades para recomeçar no Brasil

Falta de planejamento, gasto indevido das famílias e o estigma da corrupção são fatores que contribuem para o insucesso dos que voltaram com missão de construir objetivos e traçar novos caminhos. O “Jornal Nossa Gente” traz relatos surpreendentes

Edição de maio/2017 – pág. 19

O grande desafio para os que retornam ao Brasil, após anos residindo nos EUA, é o recomeçar. O desapego das facilidades americanas – amigos, restaurantes, passeios, dólares -, requer embrenhar-se a uma realidade de enfrentamentos, despojando-se do comparativo entre uma situação e outra: É melhor estar lá (Brasil) ou aqui (EUA)? Muito tem se falado de reforma imigratória, do que poderá ocorrer no governo imprevisível de Donald Trump, esquecendo-se de que a volta para casa – o Brasil -, tem sido uma experiência desastrosa para a maioria, com a perda de investimentos, dinheiro gasto indevidamente pela irresponsabilidade de tutores, e a não readaptação familiar. O efeito contrário é alarmante. O reverso do sonho leva brasileiros ao abismo da insatisfação, causando-lhes transtornos psicológicos e rejeição ao habitat. E como exemplifica o músico e poeta Kelson Kizz, “O homem não é produto do meio como diz alguns pensadores. Só absorvemos do meio o que nos é conveniente!”

É necessário estar atento quando a decisão é voltar para o Brasil com a missão de construir objetivos e traçar novos caminhos, ainda que o país sofra com o estigma da corrupção e a deslealdade no âmbito político e social. Na melhor das intenções, vale recapitular as questões monetárias – verificar se o dinheiro foi devidamente aplicado -, conversar com o seu destinatário e estar seguro de que não haverá surpresas. Transpor a linha tênue entre o risco e a dúvida é imprescindível. Outro fator preponderante é a questão da idade. Passar dos 40 anos em reduto brasileiro é estar à mercê da exclusão no mercado de trabalho. O preconceito ainda persiste e as possibilidades são quase que remotas na contratação pelas empresas. Até mesmo para retornar é importante estar amparado.

Para esclarecer pontos conflitantes quanto a volta de nossos compatriotas ao país, o “Jornal Nossa Gente” conversou com alguns brasileiros – ouvindo prós e contras -, deixando evidente que os relatos desta matéria traduz o pensamento – opinião – daqueles que hoje vivem no Brasil, enfrentando as dificuldades com o excesso de encargos de uma Economia volátil. Pessoas que retornaram dispostas a recuperar familiares, reencontrar amigos e montar o seu próprio negócio, objetivando uma vida tranquila e segura. Entretanto, o elemento surpresa é o vilão que ainda persiste e que às vezes acaba mudando o rumo da história.

Para Alexandre Ferreira, 48 anos, residindo em Poços de Caldas (MG), após viver durante 23 anos na cidade de Mount Vernon, no Estado de Nova York, à volta para casa foi uma decepção. “Quando cheguei ao Brasil tinha planos de montar uma papelaria e viver um pouco mais tranquilo, sem a correria de Nova York. Mas as coisas no Brasil são imprevisíveis. Para abrir uma empresa a burocracia é tamanha que você acaba perdendo a paciência. E os encargos com impostos são muito altos, e não há incentivo do governo para os investidores iniciantes. Fui obrigado a abrir mão de tudo e hoje trabalho como vendedor em uma empresa de tintas”, relata.

É visível no olhar de Alexandre a frustração de não ter conseguido realizar suas metas. E quando perguntado se voltaria a morar nos EUA, a resposta é enfática: “Daria tudo para estar lá. Tinha uma empresa na área da construção civil que deu emprego para brasileiros e mexicanos. Os meus clientes até hoje me ligam perguntando quando eu vou retornar, mas não sei o que responder”, confessa. “Tentei três vezes entrar nos Estados Unidos por caminho errado, mas não deu certo. A última vez que fiz o caminho por Bahamas fui preso. E por ordem do juiz não posso mais voltar ao país. Se for pego vou ter que cumprir dez anos na prisão, sem direito a recursos”, lamenta.

Trabalhando como atendente de balcão em uma lanchonete na cidade de Botelhos (MG), Adalgiza Campos, 54 anos, morou oito anos nos EUA, na cidade de Elizabeth, no Estado de Nova Jersey, e tinha planos de abrir uma loja de cosméticos em sua cidade. “Eu fiquei sabendo, lá nos Estados Unidos, que o mercado para produtos cosméticos no Brasil estava em alta. Eu trabalhava com faxina e resolvi arriscar. E quando cheguei a Botelhos, investi o meu dinheiro na compra de produtos cosméticos, na reforma do ponto que aluguei, mas só tive prejuízos. As pessoas que compraram a prazo não me pagaram então precisei fechar a loja. Tentei vender os produtos visitando as clientes e não funcionou. O dinheiro que juntei durante os oito anos sumiu. Precisei arrumar trabalho para não passar fome”, conta.

A culpa da família

Mas há um contraponto surpreendente nos relatos, quando a causa do problema é a própria família. Mães, esposas e irmãos que não aplicaram o dinheiro enviado ao Brasil – destinados a uma série de obrigações -, provocando um rombo no orçamento do emigrante desavisado, levando a vítima ao desespero. Esse é o caso de Antônio Levi da Silva, 42 anos, hoje vivendo na cidade de Caldas (MG), que incumbiu à irmã mais velha de depositar o dinheiro – enviado mensalmente -, em uma conta poupança destinada a pagar no futuro os estudos das duas filhas menores. E durante os dez anos em que morou em Nova York, trabalhando como pedreiro, Levi mandou dinheiro para a poupança das filhas, abrindo mão de frequentar festas e restaurantes para economizar.

“Eu fiquei revoltado quando cheguei a minha cidade e descobri que a minha irmã não tinha depositado o dinheiro, e que não tinha poupança alguma”, lembra Levi com mágoa. “Eu sentei na calçada na frente da minha casa e chorei. Ela mentiu o tempo todo e eu confiei nela. Eu deveria ter ligado para o banco, ter falado com o gerente, mas ela dizia que estava tudo bem e que eu não precisava me preocupar”.

Mas, em contrapartida, há os familiares que cuidam com responsabilidade dos bens de seus parentes nos EUA, obedecendo criteriosamente às determinações quando no recebimento do dinheiro. Tudo certo não fosse à falta de pesquisa de mercado, de local adequado para abrir um negócio, e mesmo a inexperiência do emigrante com a área que pretende trabalhar no Brasil. É um tiro no escuro, e o erro de estratégia acaba sendo fatal. Isso tem sido frequente com o chamado “brasileiro cabeça dura”, que não ouve ninguém, ignora os avisos, e que chega ao Brasil disposto a investir no negócio que almejou. Sem planejamento algum e desprovido de conhecimento adequado para tocar a empresa, acaba se tornando refém da sua própria teimosia.

“Melhor nunca ter conhecido os Estados Unidos”

Há um contingente de pretensos empresários que não deram certo no Brasil e que almejam retomar o caminho de volta, mas os tempos são outros. Pessoas que não se legalizaram no país – durante o período em que viveram aqui -, e que encontram dificuldade para obter o Visto de entrada nos EUA. O que fazer? A busca incessante para encontrar uma solução desestabiliza o emocional e tudo vai por água abaixo. A pior armadilha, no caso, é o conflito familiar, pois geralmente o casal esbarra na divergência de opinião, quando o marido quer deixar tudo e retornar aos EUA e a esposa mantêm-se irredutível, apostando que pode dar certo, com paciência e trabalho. O impasse prejudica os filhos.

“Melhor nunca ter conhecido os Estados Unidos porque há uma inquietação e você perde a referência, não sabe se fica ou se vai embora de vez”, comenta a paulistana, Sonia Apolônio, 47 anos, que reside na Cidade de Guarulhos (SP) e que viveu durante cinco anos em Boston. “Hoje trabalho como assistente administrativa em um escritório de advocacia, mas não esqueço a vida que tive lá fora”, lembra. “Eu trabalhava limpando casas e falo isso com muito orgulho. Fui faxineira nos Estados Unidos e recomeçaria tudo de novo se eu tivesse uma segunda chance”, reforça.

Mas como em toda regra há exceção, Rita de Castro Almeida, 56 anos, está feliz com a volta ao Brasil, pois conseguiu emprego em uma agência bancária em Poços de Caldas. Ela serve cafezinho para a diretoria e gaba-se quando fala que aprendeu o inglês e que se sentiu útil quando uma situação constrangedora aconteceu na agência em que trabalha. “Dois americanos queriam informações de como enviar uma remessa de dinheiro de Poços para os Estados Unidos. Os funcionários que estavam na agência não falavam inglês. Foi um transtorno. Consultaram o pessoal da diretoria, dos caixas, e o gerente se lembrou de mim, ele sabia que eu tinha morado em Mount Vernon por mais de vinte anos e mandou me chamar na cozinha. Falei com os americanos e resolvi o problema (risos). Fui promovida no meu trabalho, hoje só sirvo café para a diretoria”.