Aprendendo a conviver

Aprendendo a conviver

Edição de junho/2018 – p. 30

Aprendendo a conviver

Para viver bem, saber conviver é muito importante. Grande parte dos desgostos, dos aborrecimentos, vem do relacionamento humano. Seja na família, no trabalho profissional, na vida social, estamos sempre interagindo com alguém. Os atritos são inevitáveis. Sartre teve a ocasião de dizer: “O inferno é o outro”. De fato, geralmente se pensa que o que perturba a paz, o bem-estar, são os outros. Entretanto, este pensamento não é correto. A causa do sofrimento está na própria pessoa que sofre. Do contrário, Deus não seria justo. E como o sofrimento, as dificuldades, são lições para o desenvolvimento do Espírito, o sofredor estaria recebendo lições desnecessárias, o que não é admissível.

A convivência com os outros é uma necessidade. Deus fez o homem para viver em sociedade. Ele não deu inutilmente ao homem a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação. O isolamento é contrário à lei natural. O homem deve progredir, mas sozinho não o pode fazer porque necessita do contato com os outros para desenvolver suas faculdades. No isolamento, ele se embrutece e se estiola (questões 766 a 768 de “O Livro dos Espíritos”).

Evoluir é o plano de Deus para todos os seus filhos. E no estágio atual em que se encontra a humanidade, na Terra, são naturais os atritos, os choques de interesse, a competição. Os Espíritos, encarnados e desencarnados, em evolução na Terra, estão todos mais próximos do ponto de partida, ou seja, do início do processo evolutivo, do que da perfeição relativa, meta a que devemos alcançar. Daí o predomínio, ainda, da matéria sobre o Espírito; as inferioridades (egoísmo, orgulho, vaidade, prepotência, ambição) sobressaindo sobre as qualidades nobres (altruísmo, solidariedade, compreensão, fraternidade, generosidade, amor). Contudo, assim como a criança não permanece nos primeiros estágios do aprendizado, devendo, para completar sua formação, prosseguir aprendendo em cursos intermediários e superiores, também o Espírito prossegue no seu processo evolutivo, neste e em outros mundos (na Casa do Pai há muitas moradas), até atingir a perfeição relativa a que está destinado.

A parábola da semente, citada no início, esclarece bem o processo evolutivo do Espírito. O reino de Deus, que Jesus compara com o nascimento e desenvolvimento da planta, é a evolução espiritual. O reino de Deus, ou dos Céus, que devemos edificar em nós, é o desenvolvimento das potencialidades do Espírito. A árvore, em germe, está na semente. As qualidades nobres, o saber e as virtudes, estão no Espírito desde o início do processo. A semente brota, cresce, se desenvolve gradualmente: primeiro a rama, depois a flor, a espiga e o grão na espiga. O homem não sabe exatamente como, mas a sequência da natureza cumpre suas etapas. A planta passa por diversos estágios. O Espírito em evolução também. Há os mais jovens, outros mais amadurecidos; alguns aproveitaram melhor o tempo, no aprendizado e na prática do bem, usando adequadamente o livre arbítrio. Outros caminham lentamente, nem sempre escolhendo os melhores caminhos para realizar o processo evolutivo. Daí as diferenças individuais. Se compreendermos que cada um está numa etapa, poderemos dar tratamentos diferenciados às pessoas diferentes. Afirmou Rui Barbosa: “Tratar iguais com desigualdades é cometer injustiça. Tratar desiguais com igualdade também é praticar a injustiça”. Cada um tem um caminho, um modo de realizar o seu desenvolvimento. Ouvir o outro, sem ideias preconcebidas, procurar compreender suas razões, é fundamental para melhorar o relacionamento. Não é inteligente criticar o outro porque ele é pouco evoluído. Não criticamos uma criança que ainda não consegue andar. Ela engatinha, é o seu estágio evolutivo, físico. Saibamos identificar as crianças espirituais, e consideremos essa condição em nossos relacionamentos. Também nós ainda não somos adultos, espiritualmente falando, e necessitamos da compreensão e tolerância dos mais amadurecidos. O psiquiatra não se aborrece, nem briga com seus pacientes, portadores de transtornos mentais. São doentes. O médico é saudável e está ali para tratá-los. Todos ainda somos, em Espírito, doentes ou crianças.