Alan Grayson fala de segurança, investidor brasileiro e metas de governo

Alan Grayson fala de segurança, investidor brasileiro e metas de governo

Democrata progressista, o advogado Alan Grayson, que concorre a uma vaga para o Congresso Americano, como Representative (deputado federal) pelo distrito 9, fala com exclusividade ao Nossa Gente, expondo metas de governo – segurança nas escolas e apoio ao imigrante brasileiro

Edição de junho/2018 – p. 19 e 22

Alan Grayson é um democrata progressista, que concorre à vaga de deputado federal pelo Estado da Flórida em 2018, assinalando sua preocupação com a saúde, e com a segurança nas escolas, que têm sido alvos de ataques nos últimos tempos. “Escolas são um alvo fácil e isso significa que precisamos mudar isso. Vamos pegar o dinheiro que já está sendo aplicado em construção e usar uma parte em segurança”, avalia Grayson.

Empenhado em reconquistar seu lugar na Câmara dos Representantes da Flórida para o 9º Distrito Congressional da Flórida – onde atuou de janeiro de 2013 a janeiro de 2017 –, o advogado Alan Grayson, identifica-se como um campeão, um líder e um amigo, disposto a trabalhar em prol da comunidade, incluindo neste contexto os imigrantes. Em entrevista exclusiva ao Jornal Nossa Gente, o candidato expõe metas de seu governo quando eleito, e fala sobre o DACA que envolve 800 mil jovens brasileiros.

Jornal Nossa Gente – Na questão da segurança, algum projeto em andamento? De que forma o senhor pretende lidar com o fator segurança junto à comunidade?

Alan Grayson – Nos últimos anos o governo federal disponibilizou armas e tanques de guerra para as policiais. O que você acha que vai acontecer quando você oferece tanques e metralhadoras para policiais? Eu realmente gostaria de ver pessoas vivendo livres do medo, de sofrer alguma violência por parte dos criminosos. Nossa taxa de criminalidade em Orlando é incomumente alta. Mas isto está causando um outro tipo de medo. Um medo relativo às autoridades públicas. Já estive em lugares no mundo em que isso é real, como Mianmar, onde pessoas têm medo da polícia. Eles pensam que a polícia vai atacá-los e bater neles. Esse tipo de coisa não deve acontecer nunca, especialmente em Orlando.

JNG – As escolas na Flórida foram alvo de atentados, que custou a vida de pessoas inocentes. O senhor tem projeto para combater a violência nas escolas?

AG – O Governo Federal gasta mais de um bilhão de dólares por ano na construção de escolas. Nada deste dinheiro é destinado para a segurança nas escolas. O dinheiro já existe. O que nós precisamos fazer é garantir que uma parte razoável deste dinheiro seja gasto na segurança das escolas. Isso inclui portas seguras nas entradas de salas de aula, quando necessário, cercas ao redor do campus, segurança próximo da recepção. Muitas escolas não foram construídas baseada em segurança mesmo depois do 11 de setembro. Escolas são alvo fácil e isso significa que precisamos mudar isso. Vamos pegar o dinheiro que já está sendo aplicado em construção e, pelo menos, usar uma parte disso em segurança.

JNG – Orlando hoje é um polo importante para investidores, inclusive, investidores brasileiros. Como o senhor analisa a questão?

AG – A força da relação é basicamente entre pessoas. Não existe uma ponte entre Brasil e Orlando. A ponte seria entre pessoas que vão e que vêm, e investimento que trafega entre ambos. Eu acho que é bem difícil para pessoas viajarem entre esses dois lugares. Eu tentei listar o Brasil como um dos países que não necessitam de visto para entrar nos Estados Unidos. Eu tentei, inclusive, aumentar o número de locais no Brasil que emitam o visto para os Estados Unidos e reduzir o processo para se obter o visto. Eu não consegui fazer progresso suficiente quando estive no Congresso anteriormente, eu sei disso. Mas vou tentar de novo quando voltar para lá. Essa facilitação de viagens entre esses os dois países é o ingrediente necessário para fazer a relação entre ambos tornar-se ainda mais forte. Eu ainda acredito que, se tivermos um acordo de livre circulação como um país tipo o México, não faria sentido se distanciar do Brasil. Não estou dizendo que ambos são os mesmos, até porque cada um tem uma situação diferente, mas os dois países garantiriam potencial que valeriam à pena, como o NAFTA, que foi concebido originalmente (North American Free Trade Agreement). A forma como o Nafta foi estabelecido no começo, foi muito ruim para os agricultores do México porque eles perderam muitos recursos e tiveram que se mudar para outras cidades. Então não queremos que o mesmo aconteça ao Brasil. Mas se tivermos um acordo com o México, seria natural questionar o motivo de não termos outro acordo com países da América Latina. Além disso, existem restrições desnecessárias entre os países, relativamente aos voos entre os dois países. Seria possível para uma companhia aérea brasileira voar até Miami e continuar até Orlando. Seria possível para uma companhia aérea brasileira voar até o Rio e continuar até São Paulo. Existem algumas barreiras artificiais e desnecessárias que complicam os negócios, sem qualquer fundamento.

JNG – Como o senhor pretende lidar com a questão dos imigrantes, em número expressivo na Flórida?

AG – Temos oitenta mil imigrantes sem documentos no 9º distrito. É um número significante. Eu suporto um processo de cidadania em um tempo menor do que os temos visto até agora. Com os democratas, o processo de cidadania pode demorar até 17 anos. Eu acho que isso é muito tempo. Eu entendo que os republicanos não oferecem nenhum tipo de cidadania, mas às vezes precisamos fazer o que é certo. A maioria das pessoas que está no país agora veio durante o Governo Bush. Os indocumentados subiram de quatro milhões para doze milhões durante esse governo. Então são pessoas que já têm uma vida aqui, e em muitos casos contribuíram substancialmente com a nossa comunidade. Não tem nenhuma maneira prática de resolver esse conflito. A única questão é: vamos deixa-los viver nas sombras, sendo vítimas de crimes expostos ao risco de pessoas que obtém vantagem sobre isso ou vamos estabelecer proteção que se estende aos seres humanos em geral? Vamos até onde é possível para proteger nossas crianças de pessoas inescrupulosas, por que não fazemos o mesmo por nossos indocumentados? Eu apoiei a oferta de cidadania e eu também votei a favor dos ‘Dreamers’. Minhas percepções são claras em relação a isso. Houve uma vez em que estava no estacionamento de um supermercado, em Polk County, durante um comício, e uma menina linda, de uns oito anos de idade, parecendo mexicana ou salvatoriana, me deu uma carta e pediu que eu a lesse quando tivesse tempo. Eu li a carta e ela reclamava de que o pai dela estava em risco de ser deportado do país e ela não queria ficar aqui sem ele. Fizemos o nosso melhor e conseguimos manter o pai dela por mais alguns meses, mas ele acabou sendo deportado. E isso cortou nossos corações. É uma vergonha separar famílias, que, em muitos casos, têm vivido aqui por décadas. Se você quer manter as pessoas fora do país, é uma coisa. Mas se elas já vivem aqui há décadas, é uma outra questão.

JNG – A questão do DACA continua no impasse no Senado e na Câmara Federal. Como o senhor avalia essa questão? Alguma solução para trazer esperança aos 800 mil jovens?

AG – Os Republicanos tentaram acabar com o DACA no congresso com votos, várias e várias vezes. Eu, toda vez votei para manter o DACA e manter milhares de pessoas que chegaram aos Estados Unidos trazidos por seus pais quando eram crianças. Existem vários republicanos no congresso que diriam secretamente que são a favor do DACA, mas eles temem em se manifestar nesse sentido porque têm medo de sofrerem algum tipo de punição. Eles reconhecem o quão injusto é mandar milhares de pessoas para países dos quais eles não têm nenhuma memória. Existe um erro de concepção no que se refere a o que é ser um cidadão.

JNG – O que o eleitor pode esperar do senhor enquanto candidato a deputado federal? Fidelidade nas propostas depois de eleito?

AG – Um campeão. Um líder. E um amigo. Você tem somente um congressista lá. Quando eu fui eleito para o congresso eu percebi que tinham 700 mil pessoas que estavam contando comigo para fazer algo de diferente para a vida deles. Uma das nossas voluntárias durante a primeira campanha, em que eu venci em 2008, era do Chile. Uma mulher muito distinta. E ela trabalhou muito pedindo para as pessoas votarem por mim. Durante a eleição, ela me puxou para um canto e falou assim, ‘olha, eu falei muitas coisas boas sobre você’. Eu respondi: ‘É, eu sei. E eu agradeço por isso’. E ela respondeu, ‘agora você precisa fazer isso verdade!’

Uma das coisas pelas quais o nosso escritório foi famoso era por ajudar as pessoas com quaisquer problemas que tivessem. A maior parte das pessoas tinha problemas de imigração e nós ajudamos centenas e centenas de pessoas. Mas ajudamos veteranos das forças armadas com problemas; pessoas com problemas de seguro desemprego e pessoas que estavam para perder suas casas. O programa de mediação obrigatória reduziu as ordens de despejo do Condado de Osceola e do Orange pela metade. Salvamos as casas de milhares de famílias. Esse é o tipo de ação que você pode esperar do nosso escritório quando eu estiver no congresso.

JNG – Enquanto democrata e experiente no âmbito político, qual o real cenário para o Partido Democrata no contexto liderado por republicanos? O que o senhor espera para soluções em médio prazo? E qual a mensagem que o senhor deixa aos eleitores que vão acompanhar essa sua entrevista?

AG – Com certeza os Democratas vão ganhar novos “Seats” no jogo. Mas esta não e a questão fundamental. A questão foi sempre: o que você vai fazer para melhorar a vida das pessoas? Os republicanos estão tentando tornar a América em um lugar de trabalho barato e escravidão ao débito, essa é a direção deles para a América. Mas as pessoas olham para os democratas e dizem, ‘nós não estamos certos sobre o que os democratas acreditam’. Falo com eles, o tempo todo. Acho que existe um acordo geral no partido, que as mulheres devem ser capazes de escolher, se querem ter um filho ou não, a questão do aborto. Existe um acordo geral de que o ‘Seguro Social’, ‘Medicaid’ e ‘Medicare’ devem ser protegidos. Estou acreditando que consigo mudar isso para que o acordo seja de que eles devam ser estendidos. Então, temos avaliados princípios básicos como estes, como nossas iniciativas. Parte do partido tende a aumentar o salário mínimo para 15 dólares (por hora). Uma parte do partido é contra isso. Parte do partido quer aumentar os fundos para educação fortemente em regiões pobres do país onde crianças mal conseguem comprar os livros. Outra parte do partido é contra isso. Então não é o suficiente para os Democratas vencerem. Eles precisam demonstrar que conseguem melhorar a vida das pessoas. Só para dar um exemplo, em Nova York, quando o prefeito Bill de Blasio foi eleito, ele prometeu duas coisas: todo mundo teria direito a licença médica remunerada, e toda criança poderia ir para a pré-escola de infância e, depois de ser eleito, em cerca de um ano e meio, todo mundo tinha direito à licença médica remunerada e toda criança conseguiu fazer isso. Esse é o tipo de ação que as pessoas esperam dos Democratas. Que eles melhorem a educação, melhorem os transportes, melhorem o ‘Seguro Social’, ‘Medicaid’ e o ‘Medicare’. E isso significa muito mais do que ‘essa pessoa ganha’ ou ‘essa pessoa perde’.

Mensagem aos brasileiros

“Os brasileiros têm uma contribuição importante para a comunidade de Orlando. Se você viesse aqui 50 anos atrás, perceberia que Orlando era majoritariamente branca e masculina, homogênea. Hoje, Orlando é impressionantemente multicultural. Vir a Orlando é perceber que diferenças entre língua e aparência, ou de onde você é, são coisas que não devem se sobrepor, não é algo para se tolerar, mas sim, algo para se admirar, porque as coisas que nos fazem diferentes são coisas que nos fazem especiais. E os brasileiros lembram toda a comunidade de Orlando sobre isso.