A verdade de João de Matos, criador do Brazilian Day

A verdade de João de Matos, criador do Brazilian Day

João de Matos fala com exclusividade ao “Nossa Gente”, analisando o Brasil e a situação dos indocumentados no país. Apolítico, ele revela quais as superstições e tradições na virada do ano

Edição de dezembro/2017 – pág. 16

A verdade de João de Matos, criador do Brazilian Day

“Quando chega a meia-noite, na virada do ano, eu levanto o pé esquerdo e fico só com o pé direito no chão. Quero entrar o ano novo muito bem, com o pé direito. Faço isso todos os anos. Uso roupa branca para harmonizar o ano vindouro. Todo brasileiro é supersticioso e preserva a tradição”, diz o CEO João de Matos, o criador do “Brazilian Day Nova York”, que reúne anualmente mais de um milhão de pessoas no bloco da Little Brazil (46 Street), em Manhattan. Em entrevista exclusiva ao “Nossa Gente”, Matos fala da paixão pelo Brasil e do orgulho de ser brasileiro. Ele defende os imigrantes indocumentados no país e diz ser apolítico.

O agora “BR Day Nova York” é o maior evento da Comunidade brasileira nos EUA, que acontece no primeiro domingo do mês de setembro, em Manhattan – desde 1984 –, numa alusão ao Dia da Independência do Brasil. Comidas típicas, shows, personalidades do nosso folclore, além de inúmeras atrações do universo cultural brasileiro, compõem a festa do Brazilian Day. A Sixth Avenue e imediações ficam tomadas pelas cores da bandeira do Brasil – um mar de sorrisos, sonhos e aplausos que traduzem a brasilidade da nossa gente.

“Quando subo ao palco do Brazilian Day e vejo aquela multidão de brasileiros vestidos com as cores do Brasil, fico emocionado. É um mar de gente que toma avenida, se estendendo até o Central Parque. Eles levantam a bandeira do Brasil com orgulho. É maravilhoso porque é gente nossa e fico muito orgulhoso por isso”, comemora. “A cada ano o evento cresce, com proporções muito positivas”.

“Hoje, por exemplo, temos o Brazilian Day no Japão, em Portugal, em tantos outros países numa celebração dos brasileiros no mundo. É tudo feito com muito amor e carinho. São trinta e três anos colorindo as ruas de Manhattan. Hoje tenho a Globo como parceira, e o evento já conquistou o seu espaço, o que é importante. O Brazilian Day está no piloto automático, basta acioná-lo e tudo funciona muito bem”, enfatiza João de Matos.

Joao Matos 03, Jornal Brasileiro em Orlando, Florida, EUA

Quanto a mudança do nome “Brazilian Day Nova York”, que passou a ser “BR Day Nova York”, explica o empresário que foi estratégia para diferenciar o evento que acontece em Manhattan. “O nome ‘Brazilian Day’ está em todo lugar, em vários países e cidades dos Estados Unidos, portanto, decidimos dar um diferencial para o evento que acontece em Nova York, onde tudo começou. E quando se fala de ‘BR Day’ as pessoas logo identificam a festa brasileira em Manhattan”, justifica.

“Somos os verdadeiros embaixadores representantes do Brasil”

Evidenciando a importância dos brasileiros nos EUA, com suas dificuldades, desafios e conquistas, João de Matos fala do empenho de todos, seja em quaisquer circunstâncias. “Nós, os brasileiros nas ruas, vivenciando o dia a dia, somos de fato os embaixadores do Brasil. Somos os representantes do nosso país. Esse negócio de embaixador fechado em escritório representar os brasileiros eu não concordo, ele não acompanham o brasileiro com o seu sofrimento e causa. A voz do Brasil é nossa, somos os verdadeiros embaixadores, representantes do Brasil”, diz em tom enfático.

“Os brasileiros precisam ter cuidado quando falam do Brasil. Não gosto de pessoas falando mal do Brasil porque é lá que estão os nossos pais, nossos avós, a nossa raiz. A minha mãe, já falecida, está sepultada em Poços de Caldas (MG). Tenho muito respeito pelo meu país e não gosto de ouvir pessoas falando contra”, ressalta o empresário.

Perguntado sobre a política do Brasil, dos acontecimentos ilícitos que denotam um cenário de corrupção, João de Matos não hesita na resposta: “sou apolítico e não gosto de falar de política. O meu líder é aquele que faz as coisas do bem. Agora, o nosso Brasil é um país incrível, um país muito sofrido pelos abusos que lá acontecem. Eu fico ressentido pelo Brasil e o vejo como um menino que apanha do pai todos os dias. Apanha, mas no dia seguinte está de pé, apesar de tudo”, lamenta. “O Brasil tem muito potencial, tem tudo para ter a maior política desse planeta”.

Joao Matos 02, Jornal Brasileiro em Orlando, Florida, EUA

 

Na questão da luta dos indocumentados pelo direito à legalização nos EUA, e da intolerância do Presidente Donald Trump, Matos foi incisivo: “eu defendo os emigrantes indocumentados e não admito esse terrorismo psicológico contra pessoas que estão trabalhando, tentando se organizar nesse país (hesita por alguns segundos e depois continua). Como eu gostaria de ter poderes para resolver essa causa, mas não compete a mim”, fala ressentido.

“Não faço comentários sobre Donald Trump. Não falo dele como também não falo de outros políticos porque não entro no mérito da questão. Volto a repetir que a causa do indocumentado é uma questão política e não detenho poderes para resolver essa questão, embora esteja solidário com todos os indocumentados”.

Ao perguntar quem é João de Matos, e como o definir criador do “Brazilian Day”, o empresário não hesita em traçar o próprio perfil: “Sou uma pessoa que gosta das coisas certas. Não gosto, por exemplo, de ver a situação dos hospitais do Brasil, da saúde precária, como também não gosto de ver pessoas passando fome no mundo, como ocorre na Somália, no Haiti. Experimente ficar com fome um dia, então você vai ver o que é ficar com fome por vinte anos. A voz do povo é a voz de Deus e o mundo pede por justiça, em várias esferas”.

Lavagem da Rua 46, em Manhattan

A lavagem na Rua 46 (46 Street), em Manhattan, ato simbólico que acontece no sábado, antecedendo ao domingo do “BR Day Nova York”, reúne brasileiros, bandas musicais, personagens do folclore nordestino e as baianas de Salvador (BA). O evento é visto com ressalva por João de Matos, que marcou presença na Lavagem em anos anteriores. “Não gosto de misturar religião com festa brasileira, não dá certo. Estive na Lavagem da rua quarenta e seis, e não vou mais. Agora não quero mais participar. O evento tem a presença de artistas, de bandas típicas e reúne um bom número de brasileiros”, conta.

Joao Matos sendo entrevistado pelo Jo 01, Jornal Brasileiro em Orlando, Florida, EUA

Para o ano vindouro – 2018 –, João de Matos, natural de São Paulo, nascido no Bairro do Brás, foi categórico em sua mensagem, mais uma vez focando nos indocumentados do país. “Eu desejo a todos um ano de paz e de realizações, e que todos os sonhos e metas possam ser concretizados no novo ano. Que tenhamos saúde, o que é mais importante”, celebra.

“Gostaria que os indocumentados desse país tivessem a oportunidade de se legalizarem. Peço a Deus que olhe por todos eles e que os abençoem em meio a tantas crueldades do mundo. Torço muito por isso”, finaliza João de Mattos.