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Endividamento dos negócios nos EUA

Endividamento dos negócios nos EUA

Edição de janeiro/2017 – pág. 32

Nós viemos de um país onde se endividar era sinal de desajuste na saúde financeira ou dos negócios. Comprar imóvel a prazo ou pelo banco, nem pensar. Ter uma empresa alavancada em juros era sinal de um caminho para a falência. Mas aqui, nos Estados Unidos, a história é muito diferente. Se não souber usar o crédito, seja bancário ou pessoal, seus negócios tendem a crescer em uma velocidade muito modesta ou nem crescerem, ficando apenas em um estado vegetativo.

Muitas são as teorias dos limites do endividamento que uma empresa pode suportar, porém todos sabem que precisam aceitar o uso do crédito para poder aumentar os seus lucros. Por isso, estudei diversos cenários, nos quais vemos o óbvio: os juros serem proporcionais ao risco ao qual se submete quem está emprestando para poder atrair o emprestador. Por exemplo, uma empresa de participação imobiliária vai pagar, nos dias de hoje, juros de 4% a 6% para comprar novos imóveis ou levantar capital de giro usando os imóveis como garantia. No entanto, as empresas que não possuem bens como suporte para obter empréstimos usam o seu Goodwill ou fundo de comércio, como nós dizemos. Nesse caso, os juros sobem para dois dígitos, não sendo surpresa baterem na casa dos 14% a 18%. Também temos diversos juros de captação pelo sistema de antecipação de receita por cartão de crédito e outros recebíveis. Esses juros ultrapassam os 20% ao ano e até podem chegar aos 30% ao ano, ficando nos limites do patamar superior dos juros aceitáveis no mercado.

Mas o que justifica o endividamento é o binômio de como alavancar o capital próprio aproveitando as oportunidades mesmo quando não se tem dinheiro para poder ganhar mais dinheiro. Uma grande empresa, por exemplo, com um faturamento estável e suas contas em dia, é chamada para fazer uma venda acima do que está no seu orçamento. O lucro é de 50% (de baixo para cima, ou 33% de cima para baixo) sobre os produtos, porém seu fornecedor só entrega se receber antecipado e seu comprador só paga após receber a mercadoria. Para fugir desse impasse, a empresa empresta dinheiro, mesmo a 2% ao mês, para poder fazer a compra da mercadoria e liquida essa operação após receber do cliente.
Levado para uma escala maior é assim que as empresas crescem. Analisamos então uma empresa que vendia $20 milhões por ano, em 2007, e agora vende $90 milhões. O endividamento dela também acompanhou o crescimento e saiu dos $14 milhões para $70 milhões hoje. Só que o lucro, que era de somente $3 milhões, passou para quase $10 milhões atualmente.

Como a avaliação de uma empresa se dá pelo resultado que apresenta, ou seja, é proporcional ao lucro, o valor da empresa, em 2007, era de $24 milhões e agora é de $100 milhões. Descontadas as dívidas, o valor líquido, dinheiro que o dono recebe depois de vender a empresa, cresceu nesses 10 anos e aumentou seu patrimônio líquido de $10 milhões para $30 milhões. Além de distribuições anuais mais generosas conforme o crescimento da empresa, o dono viu seu investimento crescer três vezes.

No entanto, há muitos outros fatores a considerar no caso das empresas, como, por exemplo,o ramo de atividades, concorrência e mercadologia do produto, porém o foco do estudo aqui é o endividamento versus o valor do negócio. Para empresas focadas em imóveis comerciais, há ganhos ainda maiores se levarmos em conta a valorização imobiliária. Historicamente essa valorização chegou aos 4% ao ano, o que está bem perto do que se paga de juros para os bancos. Sendo assim, grande parte dos juros é compensada pela valorização do imóvel.

A obtenção do acesso aos empréstimos é mais difícil para quem está começando ou para pequenas empresas do que para aquelas que já estão no mercado há anos, ou para empresas maiores. Porém, na administração de negócios e empresas, o componente bancário tem uma participação importante. O crédito pessoal, muitas vezes idolatrado por certas pessoas, não é um fator decisivo para obter empréstimos para empresas. Os bancos se baseiam mais na geração da receita do que em quem está por trás dos empréstimos para administrar essa empresa. Muitos empréstimos, geralmente empresariais, são nonrecourse loan; não sei se há tradução para o português para esse termo, mas basicamente quer dizer que não há uma pessoa física por trás do empréstimo.

Outro fator, no caso do crédito pessoal, é que o score é sempre reduzido pelo número de consultas de crédito que são feitas, fator imprescindível no caso de ser dono de uma empresa que está crescendo e continuamente indo ao mercado financeiro para refinanciar, fazer novos financiamentos ou buscar melhores tarifas. Portando, não desanime se seu credit score não for o melhor do mundo.

O equilíbrio de contas e uma reserva para tempos difíceis são extremamente recomendáveis quando se está entrando nessa forma de administração de empresa. Vale muito ter uma liquidez de pelo menos 10% do valor do endividamento. Essa liquidez pode ser por meio de papéis ou depósitos.

Como contamos com uma economia bem estável e em crescimento histórico, vale trabalhar com budget e com controle de fluxo de caixa, para prevenir e para antecipar os meses de falta de giro. No Brasil, a inflação acabava mascarando os juros, que, às vezes, eram muito menores que a própria inflação e a economia andava de cabeça para baixo.

Muitos são os meios de empréstimos, um bom agente bancário pode ajudar a procurar o melhor para seu negócio. Em casos maiores, procurar por um sênior lender ajudará a balancear as taxas e os percentuais de endividamento por tipo de colateral.

Como se trata de um assunto que pode colocar em risco a vida de uma empresa, sempre é bom procurar também um business advisor. O custo desse profissional pode ser resgatado no próprio endividamento se ele for competente para negociar as melhores taxas e também em determinar o melhor nível de endividamento para seu negócio.