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Incerteza nos primeiros cem dias do governo Trump

Incerteza nos primeiros cem dias do governo Trump

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DEZ/12 – pág. 04

Considerado por um contingente de americanos como um “analista clássico”, movido por suas próprias opiniões, Donald Trump tem pela frente grande desafio, enfrentando correntes contrárias que o veem como ameaça à segurança global. A partir do dia 20 de janeiro de 2017 o republicano assume a Casa Branca com staff de nomes polêmicos e conservadores

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Como serão os primeiros cem dias do governo de Donald Trump à frente dos Estados Unidos? Essa questão é levantada com preocupação pelos economistas, pela imprensa e pelas autoridades do Partido Democrata. Neste contexto de expectativas, os 11 milhões de imigrantes indocumentados esperam por medidas plausíveis, que possam tirá-los do corredor da invisibilidade no país. A partir do dia 20 de janeiro de 2017 inicia-se a chamada era Trump, comandada por homens brancos e conservadores, evidenciando a Supremacia branca que assume o poder com discurso inflamado de mudanças. Para um grande contingente de americanos tradicionalistas, Trump é como um sopro de esperança, no entanto, os oposicionistas veem o republicano como uma perigosa ameaça à segurança global.

Nas últimas semanas Donald Trump escolheu nomes polêmicos para comandar órgãos importantes do futuro governo, provocando reações contrárias à sua decisão ao nomear o empresário Rex Tillerson, CEO do gigante petrolífero “ExxonMobil”, como seu secretário de Estado. Obvio que a nomeação ainda dependerá do voto de confirmação do Senado, mas o descontentamento é pela ligação do empresário com o presidente russo Vladimir Putin. O presidente eleito, no entanto, teceu elogios afirmando que, “os americanos voltam a ter um líder de classe mundial trabalhando para eles. É a encarnação do sonho americano”, disse em uma nota oficial. Tillerson, de 64 anos, recebeu o apoio de diversos integrantes do establishment republicano, incluindo o ex-secretário de Estado James Baker, a ex-secretária de Estado Condoleeza Rice e o ex-secretário de Defesa Robert Gates, segundo a autoridade da equipe de transição.

Em contrapartida, o presidente em exercício, Barack Obama, advertiu que seu governo “tomará medidas” contra a Rússia por causa dos ataques cibernéticos ocorridos durante as eleições para a presidência com o objetivo de interferir em seus resultados. “Acredito que não há dúvida de que quando qualquer governo estrangeiro tenta impactar a integridade de nossas eleições nós temos que tomar medidas e vamos fazer no momento e no local que decidirmos”, afirmou Obama durante entrevista. O presidente também comentou que “algumas (dessas medidas) podem ser explícitas e públicas, enquanto outras podem ser que não”.

O resultado da eleição para presidente dos Estados Unidos, anunciado, em nove de novembro, iniciou-se um trabalho para entender como analistas políticos tarimbados e veículos tradicionais, acostumados a lidar com disputas eleitorais há décadas, não conseguiram captar o sentimento dos quase 50 milhões de americanos que deram um voto ao candidato republicano. Trump seguiu seus instintos e a cartilha de um populismo desvairado. Defendeu a tortura como método de investigação, propôs o banimento de muçulmanos, comparou os imigrantes mexicanos a “estupradores” e, num vídeo divulgado um mês antes das eleições, vangloriou-se de abusos contra mulheres. A eleição de Trump contrariou ainda as tendências demográficas que mostravam o crescimento da participação de eleitores latinos e de mulheres – o que deveria, em tese, ter favorecido Hillary Clinton no Colégio Eleitoral.

E após oito anos do mandato presidencial de Barack Obama, a Casa Branca ganha um novo capítulo em sua história. É a vez do bilionário e ex-estrela de televisão ocupar a cadeira mais cobiçada por líderes políticos. Aos 70 anos, Donald Trump nunca havia sido eleito, mas soube interpretar como ninguém – e contra todos os prognósticos – os temores de uma classe média branca frustrada em um mundo em transformação. A cúpula do Partido Republicano praticamente lhe deu as costas abertamente, mas ele não sucumbiu. O jovem vindo dos subúrbios de Nova York, que se transforma em um magnata do ramo imobiliário é hoje o presidente da maior potência do planeta.

Há duas correntes de opinião entre os eleitores republicanos de Donald Trump. Uns esperam que ele seja na Casa Branca o Trump de sempre: radical, agressivo, movido por suas próprias opiniões, centralizador e convencido de que a distância entre a administração pública e os grandes negócios é muito reduzida, ou seja, um capitalista clássico. Outros acreditam que a fanfarra de campanha não passa de fanfarra de campanha mesmo e que, no poder, Trump será contido pelo Partido Republicano.

China e Taiwan, um desafio

O problema para Donald Trump, segundo analistas políticos, será a China. Sua iniciativa de falar pessoalmente com a Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, do Partido Progressivo Democrático (PPD), foi um expresso desafio ao equilíbrio das relações entre os dois países. Um gesto que havia sido negociado com o lobby de Taiwan em Washington, liderado pelo ex-senador e ex-candidato a Presidente, Robert Dole . Foi mais uma provocação do que uma mudança de política. Trump vem criticando muito insistentemente as restrições comerciais da China e determinadas práticas invasivas de Pequim. Não poderá esquecer, porém, que Pequim é o maior comprador da dívida norte-americana e que boa parte do crescimento do mercado consumidor americano depende das importações da China.

O Japão, por sua vez, não deverá acarretar maiores desafios para a Administração Trump cuja tendência será muito provavelmente no sentido de fortalecer as posições defensivas de Tóquio no que se refere às pretensões expansivas de Pequim no Mar da China, objeto de frequentes litígios. Quanto ao combate ao radicalismo islâmico, o que deve- se esperar é um comprometimento maior do poderio militar dos Estados Unidos. Liderar pela frente e não por detrás, como foi à política empregada por Obama.

No que diz respeito à América Latina, os olhos da futura administração estarão prioritariamente voltados para o México e para os temas migratórios em geral. O tão falado muro que Trump quer construir na fronteira com recursos mexicanos para evitar o influxo dos “males” proveniente do país (emigrantes ilegais, drogas, dinheiro sujo, violência entre outros) é mais um símbolo do que uma realidade possível.

O Brasil a esta altura, felizmente, está longe do radar da futura administração. Nos meios empresariais americanos é evidente, porém, a preocupação com a crise brasileira e com o desempenho da economia. Caberá eventualmente ao Brasil configurar e propor um projeto de ativação das relações bilaterais. Na opinião do professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Davisson Belém Lopes, o Brasil carece de uma grande estratégia para lidar com a complexidade do cenário internacional que se anuncia após a eleição de Donald Trump. “Não sabemos como será o posicionamento brasileiro, se de alinhamento com os Estados Unidos ou aproximação com Rússia e China; se seu comércio passará pela OMC (Organização Mundial do Comércio) ou por acordos bilaterais; nem como lidará com questões como intervenções humanitárias. O momento é de incerteza e ambivalência”, enfatizou.

Dilema dos indocumentados

O discurso que levou ao bilionário populista ao poder foi carregado com promessas de deportar imigrantes indocumentados que vivem no país e para construir um muro na fronteira com o México. Medo e incerteza estão crescendo entre os indocumentados desde o resultado da eleição presidencial. Os brasileiros indocumentados não pensam em desistir do “sonho americano”. Tanto os que vivem há muitos anos quanto os que chegaram há poucos meses planejam manter suas rotinas e aguardar pelos próximos passos de Trump. A opinião é de que o presidente republicano não deva cumprir o prometido, e muitos lembram que o próprio Trump vem amenizando o seu discurso.